Depois de sofrer duras perdas ao longo de 2020, o real brasileiro volta a atrair as atenções dos investidores globais sob perspectivas mais positivas para os próximos meses. Em um momento de firme demanda por ativos de risco, analistas e gestores afirmam que, no curto prazo, a moeda brasileira deve ser um dos principais destaques na busca por prêmio no mundo emergente.

Em pesquisa com investidores da América Latina, o Bank of America (BofA) perguntou qual moeda superaria o desempenho dos pares nos próximos meses. O real recebeu 42% dos votos, seguido, de longe, pelo peso mexicano, com 19%. Apenas 12% entrevistados esperam que moedas de economias desenvolvidas se destaquem.

“O real está em boa posição para ter um desempenho melhor que outros emergentes devido a preços favoráveis, posição técnica e forte melhoria nos termos de troca do país, já que o minério de ferro está em alta”, explica Gustavo Medeiros, vice-diretor de pesquisa na Ashmore.

Desde o fim de outubro, a moeda brasileira já recuperou 13% de seu valor contra o dólar e praticamente empata com o peso colombiano (13,9%) no ranking dos melhores desempenhos globais no período. Ontem, o dólar fechou por aqui em queda de 0,49%, aos R$ 5,0778.

O desfecho das eleições nos EUA e a euforia com a chegada das vacinas para o combate à covid-19 destravaram o fluxo para ativos de riscos, principalmente os de mercados emergentes. Por aqui, também contribui o fato de que o real sofreu muito durante a crise e existe perspectiva de retomada da economia, com normalização da política monetária, o que deixa o “carry trade” [operação que lucra com o diferencial de juros entre países] um pouco mais atrativo.

A pesquisa do BofA também mostrou que 81% dos entrevistados esperam que a Selic, hoje em 2%, seja elevada no próximo ano e a maioria projeta o juro básico de até 3,5% no fim de 2021. Já em relação ao México, poucos participantes esperam aumento dos juros em 2021 (apenas 19%) e a maioria projeta que a taxa de referência fique entre 3,75% e os atuais 4,25%.

Na avaliação da equipe de estratégia de câmbio do Wells Fargo, moedas altamente correlacionadas a uma recuperação cíclica da economia global tendem a se beneficiar ainda mais no próximo ano - como é o caso do peso colombiano, do peso chileno e, no curto e médio prazo, do real.

Em relação à moeda brasileira, o estrategista Brendan McKenna diz que a visão do Wells Fargo sobre o real “mudou modestamente e agora estamos cautelosamente otimistas de que a moeda pode se fortalecer no médio prazo”. O banco americano projeta o dólar a R$ 5,00 no fim deste ano, chegando a R$ 4,80 no fim do segundo trimestre de 2021 e voltando a R$ 4,90 no fechamento do ano que vem.

“Acreditamos que o governo Bolsonaro continuará comprometido com o teto de gastos e que a dinâmica fiscal e da dívida se estabilizará, levando os investidores a se tornarem mais confiantes na moeda brasileira”, avalia McKenna. O cenário do Wells Fargo contempla a Selic em 2,5% no fim do ano que vem, um tombo de 4,5% no PIB deste ano e alta de 4,8% em 2021.

A visão construtiva para o real defendida pelo banco americano, contudo, não se estende para outras moedas de emergentes, como a lira turca e o rublo russo. No cenário principal traçado pelos estrategistas do Wells Fargo, uma dinâmica mais volátil é esperada em relação à lira turca, ainda mais em meio a possíveis questionamentos sobre a independência do banco central da Turquia. Eles apontam, ainda, que o risco de sanções tanto aos turcos quanto aos russos aumenta com Joe Biden no comando da Casa Branca a partir de janeiro, o que pode pressionar ainda mais essas moedas.

Os estrategistas do Deutsche Bank, por sua vez, destacam que o real ainda tem bastante prêmio em relação aos fundamentos econômicos do Brasil. “É a moeda mais desvalorizada no mundo emergente em relação a fundamentos de longo prazo junto com a lira turca. No entanto, o real oferece uma inflação muito mais baixa e uma dinâmica de balanço de pagamentos muito melhor”, dizem.

O grande ponto no futuro da moeda brasileira está na trajetória da dívida pública. “Se o governo fracassar em cumprir o teto de gastos, o dólar poderia chegar a R$ 6,50 ou mais, mas seria negociado abaixo de R$ 5 se o governo tiver sucesso”, dizem os estrategistas da casa, que atribuem um terço das probabilidades ao primeiro cenário e dois terços para o segundo. Para o Deutsche, a resolução deve vir no primeiro trimestre, e a projeção da casa é de dólar a R$ 4,90 no fim de 2021.

Por outro lado, apesar da recuperação recente do real, os analistas do Commerzbank continuam “céticos” sobre a retomada do câmbio local no curto prazo e continuam vendo potencial de “recaídas”. Devido aos riscos idiossincráticos e ao nível bastante baixo da taxa básica de juros, a abundância de liquidez global, em meio a busca de rendimentos atrativos, deve beneficiar o real de maneira limitada, dizem as analistas Alexandra Bechtel e Melanie Fischinger, em relatório.

O Commerzbank avalia que o dólar chegará a R$ 5,40 em março de 2021. Em seguida, passará por uma alívio maior e terminará 2021 em cerca de R$ 5. Já em dezembro de 2022 ficaria em R$ 4,20.

Chefe de pesquisa macroeconômica do Bradesco BBI, André Carvalho afirma que o real se beneficia do bom humor global neste momento, mas aponta que outros fatores podem pressionar o mercado de câmbio ao longo de 2021 - entre eles, a disputa presidencial de 2022. “Quando chegarmos ao fim de 2021, vamos ver outro elemento ganhando força: as eleições presidenciais do Brasil. Hoje isso pesa pouco, mas no fim de 2021 vai ser um elemento relevante.”

Carvalho afirma que o real será direcionado, em boa parte, pela percepção de risco no ano que vem. Ele explica que, atualmente, a conta de capital no balanço de pagamentos é mais importante que a conta corrente para o câmbio. Isso porque é muito mais fácil para o investidor brasileiro aportar capital no exterior, algo que tende a pressionar o câmbio de maneira estrutural. “Existe um pano de fundo estrutural que preserva real fraco por anos e existe uma conjuntura tática que deve beneficiar a moeda nos próximos meses”, diz o profissional, que vê o dólar em R$ 5,20 no fim de 2021.

Analista no Economist Intelligence Unit (EIU) para América Latina e Caribe, Rodrigo Riaza também alerta para os riscos políticos no fim do ano. Embora não seja a premissa básica, o risco de turbulência causada pela quebra do teto de gastos permanecerá alto. “Por enquanto, os mercados estão bastante otimistas quanto ao teto, mas a volatilidade pode aumentar novamente mais tarde em 2021, com o aumento do risco político na corrida para as eleições de 2022, quando a conversa sobre um novo impulso aos gastos sociais pode ganhar força”, alerta.


Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Lucas Hirata e Victor Rezende - De São Paulo, 18/12/2020