O ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, disse ontem que o início da vacinação emergencial contra o coronavírus no país só acontecerá em “meados de fevereiro”. E pediu aos brasileiros que contenham a “ansiedade” e a “angústia”, ao defender que o país tem o maior programa de imunização do mundo e é o principal fabricante de vacinas da América Latina.

A fala representa uma nova mudança nas estimativas do ministro, que inicialmente estimou a data para março e há uma semana disse que a imunização poderia começar ainda neste mês ou em janeiro.

Além disso, o Ministério da Saúde firmou ontem um memorando de intenções para a compra de toda a produção da Coronavac, produzida em parceria entre o Instituto Butantan e a farmacêutica chinesa Sinovac.

Segundo fontes na pasta, não há acordo para compra, diferentemente do que foi divulgado. Isso porque “o governo não pode, por lei, comprar um produto que ainda não existe”. Ainda assim, o gesto pode pôr fim à chamada “guerra das vacinas”, que tem como antagonistas o presidente Jair Bolsonaro e o governador de São Paulo, João Doria, seu desafeto.

Pazuello participou ontem de uma cerimônia para o lançamento do Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação Contra a Covid-19, no Palácio do Planalto. O ato contou com a presença de Bolsonaro e de ao menos dez governadores - incluindo petistas como Fátima Bezerra (Rio Grande do Norte), Camilo Santana (Ceará) e Wellington Dias (Piauí). João Doria não compareceu.

“Senhores, vamos nos orgulhar da nossa capacidade. [...] Vamos levantar a cabeça. Acreditem”, afirmou. “O povo brasileiro tem capacidade de ter o maior sistema único de saúde do mundo, de ter o maior programa de imunização do mundo. Nós somos os maiores fabricantes de vacinas da América Latina. Pra que essa ansiedade, essa angústia?” O país já registrou 7 milhões de casos da doença e quase 184 mil mortes.

Momentos depois, ele concedeu entrevista coletiva ao lado de secretários da pasta. A jornalistas ele disse que, se toda a documentação for apresentada em dezembro à Agência Nacional de Vigilância Sanitária, com solicitação de registro, a vacinação começará em cerca de dois meses.

“A previsão, se nós conseguirmos manter o planejado do Butantan e da Fiocruz de apresentar a fase 3 dos estudos e toda a documentação da fase 1 e 2 ainda em dezembro à Anvisa e solicitar o registro, nós teremos aí janeiro para análise da Anvisa e, possivelmente, em meados de fevereiro para frente, nós estejamos com estas vacinas recebidas e registradas para iniciar o plano”, estimou o ministro.

Ele afirmou ainda que não há no país “vacina em quantidade considerável para que a gente possa falar em distribuição e iniciar qualquer plano”.

“Precisamos produzir mais e precisamos ter a capacidade de controlar a angústia para nós passarmos esses 45, 60 dias a partir de agora, que serão fundamentais para que se concluam os processos, sejam feitos os registros, sejam produzidas as vacinas, para que nós iniciemos a grande campanha de vacinação”, afirmou.

No início do mês, o ministério previa que a imunização no país começaria somente em março.

Porém, a pasta ficou sob pressão depois que Doria anunciou, em 7 de dezembro, o início da vacinação no Estado para 25 de janeiro, aniversário da capital paulista.

Dois dias após anúncio de Doria, e diante da insatisfação de governadores, Pazuello afirmou em entrevista à rede CNN que a população poderia começar a receber as vacinas ainda neste mês.

“Se a Pfizer conseguir a autorização emergencial e nos adiantar alguma entrega, isso [o início da vacinação] pode acontecer no fim de dezembro ou em janeiro”,

disse o ministro na ocasião.

Questionado pela reportagem sobre as mudanças na previsões de Pazuello, o Ministério da Saúde respondeu: “Em relação ao início da vacinação, depende da aprovação e registro do imunizante junto à Anvisa”.

O plano apresentado ontem teve mudanças em relação ao divulgado no último fim de semana pela pasta. Uma das principais foi a inclusão de presidiários, pessoas em situação de rua, trabalhadores do transporte coletivo, quilombolas e ribeirinhos no grupo prioritário para receber a vacina contra a covid-19.

Permanecem nesse grupo os trabalhadores da área de Saúde, idosos acima de 60 anos, indígenas, pessoas com comorbidades, funcionários do sistema prisional e membros de forças de segurança e salvamento, além de professores.

A estimativa do ministério é que 49,7 milhões de pessoas desses grupos sejam imunizadas com a disponibilização de cerca de 104,3 milhões de doses da vacina.

O plano do governo estima que haja cerca de 360 milhões de doses da vacina entre as já encomendadas e em negociação. Desse total, 210,4 milhões são do convênio entre a Fiocruz e a AstraZeneca, maior aposta do governo até aqui. Outras 42,5 milhões são advindas do convênio Covax Facility. Há também memorandos de entendimentos para a aquisição de 70 milhões de doses da vacina da Pfizer e 38 milhões de doses do imunizante da Jansen.

O plano passou a prever a inclusão da Coronavac no Plano Nacional de Imunização (PNI), mas ainda não há uma quantidade estimada de doses. O mesmo vale para outros fabricantes, como Bharat Biotech, Moderna e Gamaleya.

Ontem, a Pfizer protocolou na Anvisa os resultados da terceira fase de testes da vacina contra o coronavírus desenvolvida em parceria pela BioNTech.

Trata-se de mais uma etapa necessária para que a empresa peça o registro da vacina junto à agência, o que ainda não aconteceu.

Os testes no Brasil envolveram 2.900 voluntários e, de acordo com o laboratório, o imunizante teve 95% de eficácia sem efeitos colaterais graves.


Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Fabio Murakawa e Matheus Schuch — De Brasília, 17/12/2020