O Relatório Trimestral de Inflação (RTI) avança muito em dar transparência aos vários cenários do Banco Central para a inflação, divulgando dados que levavam anos para se tornarem públicos. A conclusão pelas projeções de inflação é que o aperto monetário poderá começar em agosto de 2021, com movimentos de 0,25 ponto percentual, até levar a taxa básica de juros a 3% ao fim do ano.
Quase todas as projeções de inflação do Banco Central já eram conhecidas, e basicamente indicam inflação em 3,4% em 2021 e em 2022, abaixo das metas de cada ano, respectivamente de 3,75% e 3,5%. Para 2023, a inflação está prevista em 3,3%, basicamente na meta, mas esse ano está bem fora do alvo do BC.
A novidade foi o Banco Central colocar as cartas na mesa, abrindo sua estimativa para a taxa de juros neutra (3%) e também sua estimativa para o nível de ociosidade da economia no fim deste ano (3,9%) e com a previsão de que seja completamente preenchida em 2022.
Mas talvez a informação mais relevante é que, ao detalhar o cenário para taxa de juros do boletim Focus usada na suas projeções de inflação de longo prazo, o Banco Central praticamente desenhou uma trajetória da taxa básica, partindo do nível atual de 2%.
Até então, o BC apenas indicava a taxa de juros do Focus ao fim de cada ano. Agora, foi mais detalhista, indicando início do aperto em agosto, com para 2,25%, seguido de outros três movimentos de 0,25 pontos percentuais nas três reuniões subsequentes, até levar a 3% no fim do ano.
Essa trajetória de juros é compatível, no cenário básico do Banco Central, com o cumprimento das metas de inflação, como se mostra acima. É como se o BC estivesse indicando: se a conjuntura se sair como previsto no cenário básico, essa é a trajetória de juros que se pode esperar.
Neste Relatório de Inflação, o Banco Central não chega ao nível dos seus pares nórdicos, que divulgam uma trajetória esperada para a taxa básica. Mas, pode-se argumentar, o BC chega bem perto disso. A atual gestão do BC acrescenta uma prática que já era adotada por administrações anteriores, de indicar a trajetória dos juros por meio das projeções de inflação no cenário básico.
Com a abertura de mais dados e hipóteses assumidas, o Banco Central dá mais transparência ao seu cenário básico e pode ter ganhos de credibilidade. Quem faz as contas, no mercado financeiro, provavelmente vai chegar às mesmas conclusões. Se tiver uma visão diferente, terá que confrontar a do BC.
Esse, porém, é apenas o cenário básico. O Banco Central fez o que há muito tempo vinha prometendo e, pela primeira vez, divulgou projeções para cenários alternativos que são realmente relevantes para o momento atual (antes, o BC tinha feito um teste, divulgando uma projeção alternativa sem muita aplicação prática imediata).
São dois cenários alternativos. Um deles leva em conta uma forte deterioração fiscal, que faz com que a inflação fique 3 pontos acima do projetado para 2021. Para 2022, a diferença é menor, com um incremento de apenas 0,8 ponto percentual. Mas parece difícil acreditar que esse último dado seja tranquilizador: se a a inflação tiver um choque de 3% em 2021, o estrago nas expectativas estará feito e os juros terão ido para a lua.
Um outro cenário alternativo leva em conta um prolongamento das impactos da covid-2019. A hipótese adotada pelo Banco Central foi bem moderada: imaginou que o grau de ociosidade da economia, de 3,9%, se mantenha nos dois primeiros trimestres do ano que vem. Nesse caso, a inflação ficaria cerca de 1 ponto percentual menor do que o previsto no cenário básico em 2021 e 2022. É bom lembrar que tem gente que aponta o risco de um novo mergulho recessivo, o que ampliaria a ociosidade.
Faltou uma terceira projeção com cenário alternativo levando em conta uma maior persistência da alta da inflação recente, que, espera-se, vai se concentrar no curto prazo. Mas, ao menos, o BC reconheceu esse risco no relatório de inflação. Não é um dos perigos mais prementes que ganham cores vermelhas no balanço de riscos, mas está lá. E o mercado será capaz de estimar o impacto de uma maior persistência da inflação.
Um último destaque são as projeções de inflação de curto prazo. O BC não comprou a tese de que a inflação de janeiro poderá ficar mais próxima de zero devido à reversão da bandeira vermelha nas tarifas de energia elétrica. Na trajetória trimestral, a inflação chega a um pico de 5,7% em junho de 2021, o que fará que supere o teto para o ano. Mas, de qualquer forma, está abaixo de percentuais acima de 6% citados por alguns analistas do mercado.
Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Alex Ribeiro, Valor - São Paulo, 17/12/2020

