O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), afirmou ontem que a agenda do ministro da Economia, Paulo Guedes, é minoritária dentro do governo neste momento e que o presidente Jair Bolsonaro desistiu de qualquer medida de corte de gastos até sua reeleição.

“A impressão que eu tenho é que o palácio não tem mais interesse em votar matérias que geram desgaste, como a PEC Emergencial. O que eu ouvi, não tenho informações, é o que eu ouvi, é que na reunião com o [senador] Marcio Bittar o presidente [Bolsonaro] disse que não quer votar mais nenhum corte de gastos”, afirmou Maia a jornalistas.

Bittar é relator da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) Emergencial, que criaria “gatilhos” para impedir o descumprimento do teto de gastos (que impede o crescimento das despesas do governo acima da inflação). O projeto era visto como essencial pela equipe econômica para cortar gastos e permitir a reformulação e ampliação do Bolsa Família em 2021. O governo ensaiou incluir os gatilhos no projeto de reestruturação da dívida dos Estados, mas desistiu na hora da votação.

“A minha dúvida é se o Paulo Guedes hoje é majoritário no governo, eu acho que não. Essa política, na qual os políticos sempre defenderam ampliação de gastos, os militares sempre defenderam ampliação de gastos, acho que está com mais força. Minha percepção é de que o Paulo perdeu a força dessas políticas que geram desgaste, mas que são melhores da sociedade. A eleição é só daqui a dois anos”, afirmou.

O presidente da Câmara afirmou que o candidato indicado por seu grupo para disputar a eleição para a sua sucessão tem convergência com a pauta econômica do governo e diverge apenas na de costumes, mas ironizou. “Pelo menos tinha convergência na economia. Não sei mais porque não sei qual a pauta econômica do governo. Do Paulo Guedes eu sei, é confusa, mas eu sei. A do governo não sei porque desistiu dos gatilhos”, afirmou.

Para Maia, a falta de clareza do governo sobre as reformas econômicas, junto com a politização da vacina contra a covid-19, é o que pode atrapalhar a reeleição de Bolsonaro. “Não tenho proximidade com o Bolsonaro, não falo com o Paulo Guedes, mas a minha impressão, olhando de longe, é que ele tem gratidão pelo Paulo Guedes, mas não tocará mais essa pauta. Não sei se o Paulo Guedes vai aguentar, se vai pedir demissão. Mas a minha opinião é de que o presidente não tocará mais aquelas agendas nos próximos dois anos”, disse.

A questão da vacina foi a deixa para que ele retomasse as críticas ao ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, a quem chamou de “desastre”. Disse que ele compromete a imagem do Exército em função de sua “incompetência” à frente do cargo e que não fez jus a fama de habilidoso em logística que tinha como general. “Eu acho o ministro da Saúde um desastre. Vai ser um desastre para o país, primeiro, e para o governo”, disse o presidente da Câmara.

Ontem, Pazuello questionou, durante lançamento do plano nacional de imunização, a ansiedade e angústia da população para o início da vacinação. Em reação, Maia lembrou que o ministro, que já teve o novo coronavírus, ficou internado por dias no hospital, mas destacou que nem todos os brasileiros recebem o mesmo suporte hospitalar.

“Pazuello, quando teve covid, foi internado no melhor hospital de Brasília e depois ficou um dia sob supervisão no hospital militar. O presidente [Jair Bolsonaro], quando teve, ficou todo dia nos hospitais sendo monitorado. Eu, quando tive, recebi um atendimento particular ótimo. Talvez por isso ele ache que nós, brasileiros, estamos ansiosos demais. Mas milhões de brasileiros não têm as condições que nós tivemos. Os hospitais privados estão lotados e os públicos carecem de estrutura necessária”, criticou.


Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Raphael Di Cunto e Marcelo Ribeiro — De São Paulo, 17/12/2020