Apesar do desempenho abaixo do esperado, o indicador do Banco Central para a atividade em outubro não gerou mudanças significativas no entendimento dos analistas de que a economia brasileira entrou no último trimestre de 2020 dando continuidade à retomada, mas em um ritmo mais lento e com uma desaceleração que deve prosseguir pelos primeiros meses de 2021.
O Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) subiu 0,86% em outubro, na comparação com ajuste sazonal com o mês anterior, informou ontem a autoridade monetária. Em setembro, o indicador teve alta de 1,68% (dado revisado de 1,29%). A mediana das estimativas colhidas pelo Valor Data apontava alta de 1,1% em outubro. Na comparação com igual mês de 2019, houve queda de 2,61%, na série sem ajuste. No acumulado de 12 meses, uma métrica mais estável, o IBC-Br caiu 3,93% até outubro. A atividade medida pelo BC acumula alta de 14,7% desde maio, mas ainda está 2,4% abaixo do nível pré-pandemia (fevereiro), calcula o Goldman Sachs.

Revisões na série, provavelmente incorporando novos números do IBGE para o Produto Interno Bruto (PIB), ajudam a explicar o desvio de outubro em relação às projeções, dizem especialistas. “Se olhamos o dado, ele não trouxe novidades ao cenário de que vimos um mês muito bom, com continuidade de alta na produção industrial, bom comportamento do varejo e um desempenho ‘ok’ de serviços, mantendo o diagnóstico de que a economia cresce em duas velocidades”, afirma Natalie Victal, economista da Garde Asset.
A indústria, que avançou 1,1% em outubro, poderia ter crescido mais, não fosse a falta de insumos, afirma Vitor Vidal, economista da XP Investimentos. Já o desempenho do varejo - alta de 0,9% no conceito restrito e de 2,1% no ampliado, que inclui veículos e material de construção -, surpreendeu o mercado.
Para Vidal, um “sinal de alerta” vem da abertura da pesquisa de serviços, setor que cresceu 1,7% em outubro. “Quando vemos os serviços prestados às famílias, às empresas e os outros serviços, que seriam o ‘core’ [núcleo] da economia, a recuperação foi muito lenta na comparação com setembro, indicando que os serviços não voltam com força.” Entre fatores para a desaceleração da atividade em outubro, a MCM Consultores cita a base de comparação elevada, a dissipação dos efeitos da flexibilização das atividades e a redução do auxílio emergencial, conjugada ao aumento da inflação, que pressiona orçamentos familiares.
Dados antecedentes da atividade em novembro, como produção e venda de veículos, apontam para altas expressivas na indústria e comércio, diz o economista da XP. Sobre os serviços, será preciso ainda acompanhar números do mercado de trabalho, acrescenta ele. Indicador mais qualitativo, a prévia das confianças de dezembro, com quedas nos quesitos empresarial e do consumidor, reforça, por sua vez, as perspectivas de desaceleração da atividade no fim do ano (leia no texto abaixo).
“Tem duas dinâmicas: famílias mais ricas com medo da pandemia, o número de casos aumentando e, entre famílias mais pobres, a realidade da vida que volta a se impor, o temor pelo mercado de trabalho, tirando ímpeto de consumo”, diz Vidal. O efeito líquido da piora da pandemia, porém, ainda é incerto, porque outra parcela (crescente) da população ignora as recomendações sanitárias e aumenta a circulação, o que beneficia a atividade no curto prazo, diz a MCM, que projeta, por ora, 0,35% para o IBC-Br de novembro.
Na avaliação da Garde, a atividade em novembro deve vir um pouco mais fraca, principalmente com moderação no varejo. Indicador da gestora para medir a “temperatura” do crescimento da atividade no quarto trimestre rodava em 4% quando saíram os primeiros dados de outubro, está em 3,3% e deve convergir para a previsão oficial de 2,3% até o fim do ano, diz Natalie.
A economista projeta queda de 4,2% para o PIB de 2020 e crescimento de 3% em 2021, mas 2,7% já seriam só pelo efeito estatístico. “Vamos sentir falta do impulso fiscal como um todo visto ao longo de 2020”, afirma Natalie. Para ela, a atividade deve “andar meio de lado” no primeiro semestre de 2021, com uma pequena chance até de variação ligeiramente negativa. Outros fatores que deixam o período mais nebuloso são o “efeito poupança”, as dinâmicas do mercado de trabalho e as perspectivas fiscais.
Vidal, da XP, diz não trabalhar com um primeiro trimestre negativo, até porque já prevê recuperação mais lenta no fim de 2020 - o PIB avançaria 1,6% no quarto trimestre e 0,8% nos três primeiros meses de 2021. “A minha grande dúvida está a partir do segundo trimestre, com a inflação corrente em torno de 5%, a taxa de desemprego batendo quase 16%, já teremos definido o próximo presidente da Câmara dos Deputados”, diz ele, projetando 0,4% para o PIB do período. A XP prevê ainda queda de 4,6% para o PIB em 2020 e alta de 3,4% em 2021.
Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Anaïs Fernandes — De São Paulo, 15/12/2020

