A indicação do Banco Central (BC) de que o “forward guidance” deve ser retirado da comunicação em breve reforçou a expectativa de boa parte do mercado de que a taxa básica de juros deve começar a subir daqui alguns meses. Em uma pesquisa relâmpago conduzida pelo Valor com 58 instituições financeiras e consultorias, a grande maioria de 50 casas acredita que o ajuste no discurso deve ser oficializado em janeiro ou em março.
A partir daí, a autoridade monetária terá mais liberdade para calibrar o nível de estímulo na economia. Do total de 58 entrevistados, 24 veem alta da Selic no segundo trimestre — a maior concentração por trimestre na coleta — seguida pelo terceiro trimestre, com 23 respostas. Inclusive, esses grupos ganharam novos adeptos após a sinalização do Banco Central.
Agora, apenas cinco analistas veem alta no quarto trimestre, enquanto quatro projetam o início da normalização para 2022 em um total de 58 casas consultadas.
Dentre as instituições consultadas, nove adiantaram as projeções de alta de juros — cinco para o segundo trimestre. Uma delas é o UBS BB, que agora trabalha com o início da normalização da política monetária em meados de junho, em vez de agosto. Com isso, o banco ajustou sua projeção para o fim do ano, de 3,75% para 4%.
“Apesar da ligação não mecânica entre o forward guidance e o ajuste na Selic, o comunicado parece semear o solo para uma nova realidade em 2021. Em nosso cenário, isso acompanha a retomada do crescimento em direção ao seu potencial de longo prazo com um reequilíbrio setorial entre bens comercializáveis e não comercializáveis (também válido para a inflação) e um recuo lento da taxa de desemprego”, acrescentam os analistas da casa.
Em relação ao levantamento feito pelo Valor logo antes da decisão do Copom, também houve uma mudança quanto ao nível projetado para a Selic no fim de 2021, quando considerado o ponto médio das estimativas. A mediana saiu de 3% no início de dezembro para 3,5% agora.
De fato, a sinalização do Banco Central de que abrirá mão do forward guidance surpreendeu grande parte dos analistas. “Confesso que me surpreendeu o guidance sobre o forward guidance”, diz Gustavo Arruda, economista-chefe do BNP Paribas Brasil. “Sabíamos que aconteceria em algum momento, até pela maneira como você imagina o forward guidance, mas, quando o BC avisa que, em algum momento isso vai deixar de existir, na prática ele já deixa. Você acabou de desfazer esse compromisso, mesmo que seja a termo. Assim, quando o forward guidance for tirado passa a ser menos relevante”, avalia o economista.
O BNP Paribas, inclusive, foi uma das casas a alterar projeções para a Selic no fim de 2021. De manutenção do juro básico em 2% até o fim do próximo ano, o banco passou a projetar altas de 0,50 ponto percentual a partir do fim do terceiro trimestre. Assim, no cenário projetado pelo banco francês, a Selic deve encerrar 2021 em 3,5%.
O forward guidance é uma diretriz adotada pelo BC de que não pretende reduzir o grau de estímulo monetário desde que determinadas condições sejam satisfeitas — como ancoragem das expectativas de inflação e manutenção da política fiscal. No entanto, o cenário de convergência da inflação sugere que, em breve, as condições para a manutenção do forward guidance podem não mais ser satisfeitas.
Vale dizer que o BC tomou cuidado para evitar a percepção de que o aumento de juros seria imediato. A instituição reforçou que o fim do forward guidance não implica mecanicamente uma elevação da taxa de juros, pois a conjuntura econômica continua a prescrever estímulo extraordinariamente elevado frente às incertezas quanto à evolução da atividade.
“Pode-se até considerar que a própria retirada do forward guidance, quando ocorrer, já poderá ser vista como um primeiro passo de um processo mais amplo de normalização da política monetária”, diz Camila Faria Lima, economista-chefe da Canvas. Para ela, uma vez retirado o forward guidance, a condução da política monetária passará a seguir o receituário tradicional do regime de metas para a inflação — assim como indicado pelo colegiado. A Canvas mantém o cenário de que a primeira alta dos juros deve acontecer no segundo trimestre de 2021. Com isso, a Selic terminará o ano em 4,75%.
O discurso de gradualidade adotado pelo BC também serviu para que analistas com uma visão mais pessimista sobre a inflação também calibrassem suas projeções. A Parallaxis, por exemplo, via uma alta de juros já no primeiro trimestre e mudou a leitura para maio. “Imaginava um tom mais duro neste comunicado, o que levaria o BC a ajustar a Selic no primeiro trimestre de 2021. Contudo, corretamente, o BC parece que irá alongar o estímulo monetário até meados do segundo trimestre de 2021. Desta forma, reduzi minha expectativa de Selic de 3,5% ao fim de 2021 para 3,25%”, explica Rafael Leão, economista-chefe da casa.
Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Lucas Hirata e Victor Rezende, Valor — São Paulo, 10/12/2020

