Enquanto a inflação surpreende para cima no fim de 2020, a percepção para 2021 é que o ano será de normalização de preços, com pressões e contrapressões produzindo um resultado líquido ainda benigno, mas caracterizado por uma inflação mais homogênea e disseminada, dizem economistas. De um lado, reajustes alterados na pandemia devem voltar, como em energia, transporte, saúde e educação. De outro, a antecipação da bandeira tarifária mais cara para a conta de luz de dezembro tirou pressão de 2021. Um índice mais “normal” vai depender ainda da queda expressiva nos preços dos alimentos, cenário que é previsto, mas não está isento de riscos.

O último boletim Focus, do Banco Central, mostrou que o mercado subiu sua projeção mediana para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) deste ano de 3,54% para 4,21%, acima do centro da meta (4%), mas reduziu a previsão para 2021 de 3,47% para 3,34%, comparado a uma meta de 3,75%. “A inflação de 2020 foi muito influenciada pela alimentação. Em 2021, nós a veremos mais disseminada e homogênea. Este ano teve dois momentos: no início do isolamento, uma deflação generalizada; agora, no quarto trimestre, recomposição de preços. O ano que vem deve convergir para algo na média desses momentos”, diz Paulo Val, economista-chefe da Occam.

Ele espera um IPCA de 4,34% em 2020 e de 3,4% em 2021. Era 3,8%, mas a bandeira vermelha 2 já neste mês retirou 0,40 ponto percentual da projeção. Há expectativa que a bandeira em dezembro de 2021 seja amarela, ou até verde. Mesmo para o ASA Investments, que espera bandeira vermelha 1, o efeito é a retirada de 0,15 ponto percentual do IPCA de 2021, diz o economista Leonardo Costa. O ASA projeta inflação de 4,5% em 2020 e 3,1% em 2021.

A contribuição da energia, porém, não é apenas baixista. Reajustes nas distribuidoras, muitos atrelados à taxa de câmbio e ao IGP-M, que subiram com força em 2020, correm em paralelo. “Vamos ter reajustes mais pesados no primeiro semestre do ano que vem, uma média de 8,5%”, estima Costa. É parte de um movimento mais amplo de recomposição de preços administrados.

“É normal em início de mandato ter taxas mais salgadas nos ônibus urbanos. Como algumas prefeituras pisaram no freio em 2020 por causa da pandemia, só reforça a perspectiva de alta em 2021”, diz Fábio Romão, economista da LCA Consultores, que projeta IPCA de 4,5% em 2020 e 3,48% em 2021. Preços farmacêuticos, segundo ele, devem passar de deflação de 2,32% em 2020 para alta de 4,17% em 2021. Já os planos de saúde, que foram congelados por um quadrimestre e devem encerrar o ano com alta de 2,74%, cresceriam ao menos 8,4% em 2021. Para a LCA, os preços monitorados iriam de 2,56% em 2020 para 3,79% em 2021.

Combustíveis - que são regulados, mas têm maior paridade internacional - também devem subir em 2021, mais pela base de comparação fraca, pondera Romão. Na sua conta, a gasolina, por exemplo, terá deflação de 0,84% em 2020 e alta de 4,09% em 2021.

No primeiro semestre de 2021, portanto, será preciso conviver com uma inflação que incomoda, reconhecem os economistas. Pelos cálculos da LCA, o IPCA acumulado em 12 meses pode superar 6% em maio e junho. Para o ASA, o pico seria em maio (6,2%). Val, da Occam, nota que uma inflação mais homogênea se aproxima da definição de fenômeno inflacionário de fato, isto é, aumento generalizado de preços. “Você tem um número que chama mais atenção.”

A descompressão nos preços dos alimentos, por outro lado, deve trazer alívio relevante. Para Romão, era natural que, com a gradual superação da pandemia, os preços das commodities fossem se recompondo, o que acabou sendo antecipado, em parte, para 2020. “Não esperamos para 2021 uma grande alta adicional nas commodities ligadas a alimentos, mas tem um risco, que é a questão climática. Em grãos, a demanda chinesa também está muito forte”, afirma Val.

Segundo Romão, os preços para alimentação devem perder força em dezembro, mas continuar em níveis elevados ao menos até fevereiro. Ele projeta alta de 14,2% em alimentação e bebidas neste ano e de 2,59% em 2021. A trégua deve vir da alimentação no domicílio, que encerraria o ano 18,32% mais cara, mas subiria apenas 1,38% em 2021. Já a alimentação fora do lar, com menos restrições sociais, pode acelerar de 4,71% para 5,74%.

Os serviços, que englobam a alimentação fora de casa, também esboçam reação, mas em patamares baixos. Segundo Costa, do ASA, a previsão é que a inflação do setor passe de 1,7% em 2020 para 3% em 2021, sentindo a dinâmica lenta de recuperação do mercado de trabalho. Na projeção da LCA, aceleraria para 4,12%, com risco altista, mas ainda muito abaixo da média de 8% até 2015.

A mensalidade das escolas, outro componente dos serviços, deve ter espaço para algum reajuste em 2021. A inflação do grupo educação passaria de 2,58% neste ano para 5,39% no próximo, segundo a LCA. “Educação caiu 3,47% em agosto e dois terços podem voltar já agora”, diz Romão, em referência à coleta expecional de preços em dezembro. Seria natural, porém equivocado, descartar o tradicional reajuste de fevereiro. “Uma coisa é retornar ao preço anterior, outra é a inflação que continua acontecendo, a evasão. Não existe espaço para reajuste em fevereiro de 5% a 8% como já vimos, mas projeto 3,26%”, afirma Romão. “É um setor que teve pressão de custo no ano, é normal buscar recomposição ou manutenção da margem”, afirma Val, da Occam, que prevê alta de 5,1% para Educação em 2021.

No geral, Romão não se diz preocupado com o curto prazo, mas com efeitos que uma forte pressão de custos, principalmente sobre bens industriais, pode deixar para 2021. “Tem um momento em que o formador de preço pode até correr risco de perder clientela, mas tem de repassar, senão quebra.” No ASA, a avaliação é que a elevada ociosidade da economia, o desemprego alto e a retirada de estímulos fiscais desenham uma recuperação relativamente lenta da atividade, mantendo a inflação benigna, segundo o economista-chefe Gustavo Ribeiro. A equipe destaca que a média dos núcleos deve ficar em 2,6% em 2020 e 2021.


Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Anaïs Fernandes — De São Paulo, 09/12/2020