variação de preços do aluguel na leitura da Fundação Getulio Vargas (FGV) teve, em novembro, a mais intensa queda em 14 meses. Mas a sustentabilidade desse recuo, para os próximos meses, é uma incógnita. A avaliação é do economista da FGV Paulo Pichetti, que comentou sobre a retração de 0,36% no Índice de Variação de Aluguéis Residenciais (Ivar).

Foi a taxa negativa mais forte desde setembro de 2021 (-0,88%), acrescentou ele, influenciada por desacelerações e recuos em taxas mensais de indicadores inflacionários, nos últimos meses. Isso porque esses índices, como IPCA e IGP-M, são usados como indexadores para reajuste em contratos de aluguel.

Com taxas mensais menores sendo inclusas no resultado em 12 meses dos indicadores, na prática, isso acaba por reduzir também taxas acumuladas, usadas no cálculo do reajuste de aluguel. Mas não há como saber se a variação de aluguel mensurada pela FGV vai continuar a cair, tendo em vista a atual imprevisibilidade de projeções para cenário macroeconômico - o que inclui estimativas para indicadores inflacionários, cuja evolução afeta a trajetória do Ivar.

Ao comentar sobre o desempenho do Ivar, o especialista destacou que três das quatro capitais usadas para cálculo do indicador tiveram queda na variação, em novembro ante outubro. É o caso dos recuos observados em São Paulo (-0,32%), Belo Horizonte (-1,21%) e Porto Alegre (-1,13%). A única cidade a registrar alta foi o Rio de Janeiro (1,55%). “Mas creio que isso [a alta do Ivar na capital fluminense] tem a ver mais com as especificidades do mercado imobiliário naquele local”, disse, reiterando que, em novembro, a tendência na variação do preço do aluguel, mensurada pelo indicador, é de queda.

O técnico explicou que o cálculo do Ivar é baseado na evolução de diversos contratos de aluguel, com diferentes “datas de aniversário”, ou seja, os períodos em que ocorre o reajuste. Mas notou que, se as taxas acumuladas dos indicadores inflacionários, usadas como indexadores, recuam mês a mês, favorecidas por menor resultado mensal, isso acaba por reduzir também variação de preço de aluguel independente de qual seria a data de aniversário.

O cenário do acumulado em 12 meses dos indicadores inflacionários, ao longo de 2022, é bem diferente em iguais períodos no ano passado, acrescentou ele.

Em 12 meses até novembro deste ano, o IPCA, indicador inflacionário calculado pelo IBGE acumula alta de 6,17%, abaixo da taxa de 6,85% dos 12 meses imediatamente anteriores.

Em igual período no ano passado, de 12 meses até novembro de 2021, o IPCA acumulava alta de 10,74%. Já o IGP-M, calculado pela FGV, acumula alta de 5,55% em 12 meses até novembro – sendo que, até outubro, subia 6,52%. Em 12 meses até novembro de 2021, o IGP-M acumulava alta de 17,89%.

No entanto, ao ser questionado se o Ivar vai continuar a cair, o técnico foi cauteloso. Ele notou que há muita imprevisibilidade no ambiente macroeconômico atual, para projeções de médio e longo prazo. “Estamos mudando de governo, de política”, lembrou ele, ao citar a troca de governo a partir de 2023.

“Não sabemos como vai ficar inflação, como não sabemos como vai ficar renda, mercado de trabalho”, citou. Sobre esse último aspecto, o especialista contou que os senhorios, ao longo de 2022, notaram aumento de renda do brasileiro, causada por melhora em emprego – e, com isso, viram mais espaço para negociar aumento de preço de aluguel.

No entanto, se não há certeza se essa melhora na renda vai continuar, os donos de imóveis não podem saber, agora, se haverá espaço para novos reajustes para cima no preço do aluguel.

“Está difícil fazer previsão para médio prazo”, resumiu. “Vamos ter que acompanhar mês a mês o Ivar [para mensurar tendência em preço de aluguel”, afirmou.

Divulgado pela primeira vez em janeiro desse ano, o Ivar, primeiro indicador com esse perfil da fundação, mensura evolução de preços de contratos de aluguéis em quatro capitais, São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Porto Alegre, e conta com série histórica iniciada em 2018, no caso de São Paulo; e a partir de 2019 para demais três capitais. Com os dados originados dessas capitais, a fundação fez média ponderada para elaborar taxa total do indicador.

O Ivar abrange, em sua coleta, preços de contrato de aluguel de longo prazo efetivamente contratados, e é anunciado mensalmente pelo portal da fundação na internet. A primeira edição a ser divulgada do indicador foi referente a dezembro de 2021.

 

Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Alessandra Saraiva — Do Rio, 08/12/2022