Os números piores do que o esperado na construção civil e as revisões do IBGE explicam a alta abaixo da expectativa dos investimentos no terceiro trimestre. Para analistas, a retomada da construção concentrada em obras domiciliares durante a pandemia, com pouco impacto no Produto Interno Bruto (PIB), também contribuiu para alta de 11% da Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF, medida do investimento no PIB), abaixo da projeção de avanço de 18,3%.

A construção responde por cerca de metade do investimento e a atividade do setor surpreendeu para baixo dentro do PIB em todas as comparações, diz Luana Miranda, pesquisadora do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV). A instituição previa aumento de 8,1% ante o segundo trimestre, de 5,6% no dado oficial, e queda de 3,4% ante um ano antes, de -7,9% divulgado pelo IBGE. “Vimos um efeito reforma muito grande durante a pandemia. E isso realmente estava mais relacionado com o consumo das famílias, é o que chamamos de consumo formiga”, afirma ela.

Entre os terceiros trimestres de 2019 e 2020, o IBGE destaca que a ocupação na construção subiu 16,6%, enquanto os insumos típicos da construção avançaram 6,1%. “Isso sugere que parte significativa da melhora da construção pode ter sido por causa de reformas ou obras informais, também com mão de obra informal. O tipo de construção que aparentemente liderou essa retomada tem um impacto menor no PIB, quase desprezível", diz José Ronaldo, diretor de Estudos e Políticas Macroeconômicas do Ipea.

O dado divulgado pelo IBGE veio pior do que o indicador do Ipea sobre FBCF, que apontava para alta de 16,3% do investimento entre o segundo e terceiro trimestres. “A revisão da série completa em 2019 e nos dois primeiros trimestres de 2020 muda toda a dinâmica que vínhamos observando. Ainda assim, a FBCF veio pior do que esperávamos.”

O IBGE revisou ontem o crescimento dos investimentos no fechado de 2019, de 2,2% para 3,4%, e também melhorou a visão sobre o indicador no primeiro trimestre (+4,3% para +6%) e segundo trimestre (-15,2% para -13,9%), na comparação com igual período de 2019. Na análise entre o segundo e terceiro trimestres de 2020, porém, a FBCF passou de -15,4% para -16,5%

O Goldman Sachs lembra que, a despeito do salto de dois dígitos no período, o investimento ainda está 27,7% abaixo da máxima, atingida no terceiro trimestre de 2013, e segue no mesmo patamar de 12 anos atrás.

Para a gestora Guide, o lado positivo do resultado de ontem é que investimento tem sido bastante beneficiado pelos cortes de juros pelo Banco Central. “De qualquer forma, a existência de uma gama de bens de investimento importados, em meio à elevada apreciação do dólar, tornou a importação de máquinas e equipamentos algo mais custoso, justificando, em parte, a baixa de 5,5% no acumulado do ano do investimento”, diz relatório da instituição.

Apesar da alta aquém da expectativa, Luka Barbosa, economista do Itaú Unibanco, considera bom o resultado do investimento em meio às revisões estatísticas feitas pelo IBGE. “Houve, sim, uma boa volta do investimento e esse é um quadro que vai continuar para frente enquanto o juro estiver baixo. O crédito imobiliário está avançando e isso é investimento.”


Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Hugo Passarelli - de São Paulo, 04/12/2020