Com a sensação de que 2020 já ficou no retrovisor, o mercado financeiro é unânime em relação à próxima decisão de política monetária do Banco Central e, agora, concentra todas as suas atenções nos rumos da Selic em 2021. Em pesquisa conduzida pelo Valor com 82 instituições financeiras, a leitura consensual é de que a taxa básica de juros será mantida em 2% pelo Comitê de Política Monetária (Copom) no anúncio de semana que vem. No entanto, as surpresas inflacionárias dos últimos meses e a indefinição fiscal no país geram grande divergência nas expectativas para 2021, com projeções que vão desde a queda da Selic a 1% até uma alta para 5%.
Diante de um cenário tão incerto para a economia brasileira em 2021, tanto a mediana quanto a moda das estimativas apontam para a Selic em 3% em dezembro de 2021, em linha com o observado no Boletim Focus do início da semana. Essa projeção é defendida por 22 das 82 casas consultadas. O levantamento mostra, ainda, que 25 instituições veem uma taxa menor que 3% no fim de 2021. Dentre elas, 15 veem a manutenção da Selic no nível atual de 2%. Por outro lado, 35 profissionais acreditam que o juro básico ficará acima da mediana de 3%.
O cenário “mudou totalmente” em relação ao observado antes da reunião de outubro do Copom, principalmente em relação à inflação, avalia o economista-chefe da Occam, Paulo Val, cuja projeção para a Selic no fim do próximo ano passou de 2% para 5% nos últimos dois meses. “A perspectiva para a inflação sofreu uma mudança bastante relevante. É inegável que, além dos preços de alimentos, há algo mais estrutural e disseminado, e isso se reflete nos números mais fortes de núcleos também”, afirma o economista.
Para ele, a demanda mais aquecida de bens acaba por afetar a inflação e, junto a isso, há diversas evidências setoriais de falta de insumo. Val cita, ainda, os preços de energia elétrica, com a demanda voltando ao normal e operando em níveis acima dos vistos no ano passado. Antes de a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) fixar a bandeira vermelha 2 para dezembro, a Occam projetava IPCA de 3,8% no fim de 2021. Após a alteração, a gestora elevou a estimativa para a inflação neste ano de 3,8% para 4,2% e reduziu a projeção para o IPCA de 2021 para 3,4%.
Apesar de ter revisado para baixo a inflação do ano que vem, pressões estruturais devem levar o BC a antecipar o início da normalização da política monetária para maio — o que tende a contribuir para manter a inflação controlada. Ele argumenta que o processo de recuperação econômica ainda se dará em duas velocidades ao longo do próximo ano, com uma dificuldade maior no setor de serviços, enquanto a indústria tende a se beneficiar um pouco mais, mesmo com o fim dos estímulos fiscais. “Não vai adiantar manter a taxa de juros muito baixa porque ela vai estimular principalmente o setor que já está bastante aquecido”, diz Val.
Do lado oposto da tabela está o economista-chefe da Macro Capital, Thiago Pereira, cuja visão aponta para a manutenção da Selic nos atuais 2% ao menos até o fim de 2021. “O governo deve reduzir as transferências de renda e a recuperação do mercado de trabalho ainda se mostra bem lenta. A dinâmica sobre o que vai acontecer com o emprego é fundamental e, no nosso cenário-base, a taxa de desemprego deve ficar acima de 13%, 14% até o fim do ano que vem, o que é uma condição para que a inflação se mantenha abaixo da meta e feche 2021 em 3,2%”, diz.
Pereira afirma ter dificuldade para enxergar a necessidade de juros acima de 2% em um cenário de continuidade do regime fiscal atual diante do tamanho da ociosidade no mercado de trabalho. “Reconheço que a questão fiscal pode ser um problema, até porque a pressão política para se fazer mais devido à pandemia pode pesar no cenário. No entanto, se não houver uma barbeiragem fiscal, o hiato do produto deve impedir uma aceleração da inflação em 2021.”
Em seu cenário básico, que contempla a Selic em 3% no fim do próximo ano, o economista-chefe do Itaú Unibanco, Mario Mesquita, supõe a manutenção do teto de gastos. “Se ele for rompido e seus gatilhos acionados, não deveria haver perda substancial de credibilidade quanto a essa âncora fiscal desde que um plano para voltar a níveis abaixo do teto seja traçado. Na ausência de um plano claro, o Copom pode interpretar que os riscos de flexibilização do teto aumentaram, o que muito provavelmente levaria o comitê a extinguir o ‘forward guidance’”, afirma.
O Itaú Unibanco projeta que o IPCA terminará 2021 em 3,1%, abaixo do centro da meta de 3,75%. Mesquita, inclusive, afirma que choques inflacionários de curto prazo são relevantes para a política monetária “apenas na medida em que, pelo canal de inércia, tenham impacto sobre projeções e expectativas de inflação no horizonte relevante para a política monetária”. Para ele, a elevação recente das expectativas de inflação no Boletim Focus “ainda não indica o não cumprimento da meta inflacionária e continua em níveis que compensam, a nosso ver, a assimetria no balanço de riscos decorrente das incertezas fiscais e da preocupação com questões de natureza prudencial”.
Para o anúncio da próxima quarta-feira, a expectativa é que o Copom mantenha a taxa básica de juros inalterada nos atuais 2% e, mesmo sem grandes alterações, calibre a comunicação em relação às pressões inflacionárias no curto prazo e às expectativas para 2021.
“Acreditamos que o BC possa, em alguma medida, adaptar sua comunicação ao comportamento da inflação e à alta nas expectativas para 2021 [na Focus], incorporando esses elementos à sua descrição sobre o cenário macroeconômico”, afirma a economista-chefe da Canvas Capital, Camila Faria Lima, que vê inflação de 3,4% no fim de 2021 e Selic de 4,75% no mesmo período. Porém, ela afirma que, “até o momento, o BC tem mantido em sua comunicação oficial o diagnóstico de que tais pressões tendem a ser localizadas ou temporárias, o que significaria a manutenção das sinalizações a respeito da postura da política monetária”.
Dessa forma, para boa parte do mercado, as diretrizes do “forward guidance” devem ser mantidas na comunicação do BC neste fim de ano. Ou seja, a autoridade monetária deve seguir com a indicação de que não pretende reduzir o grau de estímulo monetário desde que determinadas condições sejam satisfeitas, como a manutenção do regime fiscal e a ancoragem das expectativas de inflação.
“A inflação mais alta no curto prazo, amplamente movida por choques transitórios, e as expectativas de inflação levemente mais elevadas para 2021, em um contexto de elevados riscos fiscais, o que fomenta assimetria altista no balanço de riscos, podem levar o BC a abandonar a parte de mais curto prazo do forward guidance, em que a autoridade indica possibilidade de corte (pequeno) no juro básico”, avalia Mauricio Oreng, superintendente de Pesquisas Econômicas do Santander Brasil. Já o plano de voo com juros estáveis no médio prazo deve ser mantido na comunicação do Copom, na visão do Santander, que vê Selic estável em 2% até o fim de 2021.
Oreng alerta, porém, que a estabilidade de juros depende da âncora fiscal. “Em um cenário alternativo, simulado há dois meses, uma hipotética decisão de elevar gastos sociais por fora do teto geraria um cenário de condições financeiras e expectativas econômicas em que a autoridade monetária seria levada a subir o juro para 6% ao fim de 2021 e 9% ao fim de 2022.”
Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Victor Rezende e Lucas Hirata, Valor - de São Paulo, 04/12/2020

