O desempenho da economia brasileira no terceiro trimestre foi menos vigoroso do que o previsto (7,7% em relação ao trimestre anterior, ante 8,8% da mediana de expectativa dos analistas). Mesmo assim, se as atividades não voltarem ao negativo nesse último trimestre, um pequeno crescimento será suficiente para garantir pelo menos a continuidade do avanço medíocre do PIB nos últimos anos, algo em torno de 1,3%. As previsões pessimistas de quedas maiores em 2020, como as do FMI (-5,8%) e da OCDE (-6%) não se concretizarão.

O futuro, porém, não está garantido. Há pouca coisa que possa impulsionar uma expansão econômica potente após a pandemia do que havia antes dela. O que a série do PIB mostra é que a economia já caminhava devagar, quase parando, dois trimestres antes da covid-19 espalhar pânico e destruição. Na comparação trimestre contra trimestre anterior com ajuste sazonal, o PIB do terceiro trimestre de 2019 caiu 0,2%, retomou 0,2% no seguinte para afundar 1,5% nos primeiros três meses deste ano e mais 9,6% no trimestre seguinte.

As revisões do IBGE na série de 2019 e na dos dois primeiros trimestres de 2020 ajudaram a frustrar as expectativas de crescimento maior. Pelo lado da produção, a indústria puxou a reação, com 14,8% ante o trimestre anterior, acima dos 14,2% previstos porque a revisão estatística agravou o tombo do setor, de -12,7% para -14,1% no segundo trimestre.

Não será possível uma expansão alentada sem a recuperação dos serviços (73,5% de peso no PIB), com sub-setores quase dizimados pelo distanciamento social necessário ao combate da pandemia. Seu avanço no terceiro trimestre foi de 6,3%, abaixo dos 7% esperados, mas a base de comparação revisada tornou-se mais alta (de -11,2% para -10,2%). O relaxamento observado nos últimos meses ativou o setor e os maiores sub-setores, como o de outras atividades (peso 18%, avanço de 7,8%), transporte, armazenamento (12,5%) e comércio (15,9%), cresceram bem.

Como parte substancial dos serviços são movidos pelo comportamento da renda, não é possível prever com algum grau de certeza sua evolução. O desemprego está aumentando, com boa parte dos que estavam fora da força de trabalho voltando, e o auxílio emergencial, que acaba em dezembro, foi reduzido à metade do valor. A taxa de desemprego no trimestre findo em agosto foi de 14,4%, com 13,8 milhões de pessoas que buscaram ocupação e não encontraram.

O recrudescimento da pandemia pode fazer com que eles continuem desempregados. A vacina estará disponível alguns meses depois do que nos países desenvolvidos, que começam a imunização este mês, e não haverá doses suficientes para todos em 2021. Ainda que não se repitam os lockdowns do início da pandemia, as restrições atuais limitam os negócios e o trabalho no setor de serviços.

Papel tão relevante no PIB pelo lado da demanda quanto é o de serviços pelo da produção, o consumo das famílias aumentou 7,6% no trimestre, bem abaixo dos 9,8% esperados. Como a maior parte dos que perderam renda são informais, o fim do auxílio é um freio ao consumo, ainda mais diante de um mercado de trabalho hostil. A inflação, mesmo temporária, consome nacos maiores da renda dos que ganham menos. Juros baixos e aumento da oferta de crédito podem dar algum alento, mas o fator decisivo é a garantia de emprego ou a possibilidade de encontrá-lo.

O governo, que vê um horizonte azul onde há sinais de tempestade, aposta na desova da poupança “precaucional”, o dinheiro economizado para enfrentar dificuldades futuras, ampliado pelo auxílio emergencial. A poupança nacional bruta, de R$ 327,9 bilhões, deu um salto de R$ 70,4 bilhões do segundo para o terceiro trimestre. A taxa de poupança chegou a 17,3%, acima dos 16,2% da taxa de investimentos. O FMI, por outras contas, mostra que a poupança privada no início do terceiro trimestre atingiu 29,6% do PIB, enquanto que a pública caiu 15,2%.

Parte dessa poupança pode desaguar no consumo, mas sem progressos consistentes de renda e emprego seu efeito é limitado. Contam muito também as expectativas, que não são otimistas diante de um governo caótico, no qual o presidente não se empenha em levar à frente reformas imprescindíveis e cuja indecisão amplia desconfianças sobre a solvência do Estado. Não há nada, por ora, que indique o arranque para um crescimento sustentado, diferente daquela exasperante lentidão com que se move desde o fim da recessão.


Fonte: Valor Econômico - Opinião, 04/12/2020