As duas agendas mais importantes nos investimentos em infraestrutura social do Brasil são saneamento básico, com repercussão imediata na saúde da população, e mobilidade urbana, que
contribui para a produtividade ao reduzir a carga de horas do trabalhador para chegar ao emprego. 

Os investimentos na área de saneamento avançaram pouco nos últimos anos. Somente 56% da população brasileira tem acesso geral à rede de esgotos. Desde 2011 o avanço é muito pequeno, com crescimento marginal, explica Marcelo Neri, economista e diretor da FGV Social. 

"É o pior serviço público do país. Mas, em contrapartida, para cada real investido em saneamento, economizam­se quatro em gastos com saúde. É um bom investimento do ponto de vista social", frisa Neri. Ele alerta que, se mantido o nível de crescimento atual dos investimentos em coleta de esgoto, vamos demorar 56 anos para que o déficit existente caia à metade.

O economista reconhece que acabaram­se os recursos fiscais nas três esferas do governo, a taxa de investimento está baixa e não há dinheiro para atender as necessidades para o investimento social. Isso, na visão de Neri, torna imprescindível a realização de novas concessões públicas, nos moldes do Programa de Parcerias para Investimentos (PPI), proposto pelo governo federal, para atender a um grande conjunto de investimentos necessários.

Mesmo assim, ele pondera que as incertezas políticas internas e externas, sobretudo após as eleições americanas, não deixam ver como esses investimentos se darão. "A principal ação do governo é cortar gastos. A carga tributária do país já é elevada e aumentá­la mais será muito complicado. O controle de gastos do governo federal e a reforma da Previdência vão ampliar a capacidade de investimento e ajudar na realização de novos investimentos no país" destaca Neri.

Esta, diz ele, deverá seguramente ser a tônica da economia brasileira nos próximos anos, se o país ainda quiser embarcar num próximo bonde de oportunidades. Vai ser custoso, mas não teremos outro caminho para crescer, por meio de trabalho de convergência com a sociedade, diz Neri. 

"No geral, perdemos muito no último ano e meio. Mas muitos ganhos foram preservados. A renda mediana dos brasileiros cresceu 95% de 2003 a 2014. Nos últimos 12 meses essa taxa foi de 6,11%. A boa notícia é que alguns meses antes esta taxa era de 7,8%", observa Neri, que foi presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) de setembro de 2012 até maio de 2014 e ministro­chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, de março de 2013 a fevereiro de 2015. 

O Brasil adotou, na década passada, caminho oposto ao resto do mundo em termos de crescimento e redução da desigualdade e os indicadores sociais cresciam mais rápido que os indicadores macroeconômicos. Desde 2003, a renda das pessoas subia mais do que o PIB no país e a renda dos mais pobres aumentava mais do que a média das pessoas. 

O país descolou­se até da América Latina, onde a desigualdade parou de cair, enquanto em 2014 no Brasil houve a maior queda da desigualdade em dez anos, de acordo com os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, do IBGE. 

Neri entende que a crise chegou com força no bolso do brasileiro entre o terceiro e quatro trimestre de 2015, com queda na renda de 5,6%. Mas, em sua avaliação, a boa notícia, agora, é que o ponto crítico da crise da renda está ficando para trás. "Está menos ruim. Ou seja, está piorando menos, com o resultado apurado no terceiro trimestre de 2016 de redução de 5,1%. Mesmo assim, as perdas ocorrem em todas as frentes, como na renda, desigualdade e instabilidade social por conta do desemprego", ressalta o economista. 

O economista, no entanto, pondera que a extensão da crise não nos fez devolver a maior parte dos ganhos da última década. "Se recolocarmos os bondes nos trilhos, ainda teremos chances de preservamos muito do que foi obtido, num contexto de maior controle de gastos, com o dever de casa bem feito." 

Fonte: Valor - Brasil, por Marco Antônio Monteiro, 01/12/2016