
O avanço da tecnologia 5G será um divisor de águas no desenvolvimento de cidades inteligentes. Com a chegada dessa nova arquitetura, objetos inanimados passarão a ter a capacidade de absorver, processar e reagir aos dados. As cidades serão atravessadas por informações que ajudarão da manutenção predial, à eficiência na mobilidade urbana, segurança pessoal, acesso à saúde e ganhos na gestão pública.
Para isso, é preciso políticas públicas que incentivem a digitalização nas cidades, reduzindo custos de infraestrutura para o Estado e empresas, a partir de base de dados que distribuam informações seguras. Em cidades com pessoas e coisas mais conectadas, segurança cibernética será palavra chave.
“Segurança cibernética e cidades inteligentes sempre andaram meio separadas”, diz Luciano Moizio, diretor de tecnologia da NEC. Hoje não é mais possível, seja pelas oportunidades que se abrem, seja porque os riscos de ataques estão cada vez mais convergentes com a disponibilidade de dados. Ao se pensar projetos de cidades inteligentes, e mesmo de automação de empresas ou de casas, é preciso incluir no modelo um projeto de segurança. Um ataque pode afetar de simples sensores de luz a dados bancários ou todo o sistema de iluminação de uma cidade, pondera.
Ter banco de dados seguros e conectados, distribuindo informações de acordo com a necessidade de cada órgão público ou empresa, foi o que China e Japão fizeram ao definirem políticas públicas para incrementar a digitalização das cidades. Marcelo Motta, diretor de segurança cibernética da chinesa Huawei, lembra que ganham governos e empresas em uma cidade inteligente. Os gestores podem trabalhar de forma preditiva, deixando de ajustar um equipamento apenas quando apresenta problema. Dados da empresa mostram que elevadores conectados por sensores, por exemplo, passaram a ficar parados 16 horas por ano, ante 48 horas no modelo corretivo.
Os ganhos chegam às fábricas, que têm incremento de 25% em eficiência, com uso do maquinário já instalado, explica Motta. Isso poderia ajudar, por exemplo, diz, a recuperar parte do espaço perdido pela indústria brasileira. Sem contar o ganho com a redução de acidentes nas cidades e nas indústrias com a aplicação da inteligência artificial.
Tecnologias de segurança com tratamento de dados já trazem a inteligência artificial para o mundo real. O reconhecimento facial em meio à multidões ajudou a apontar procurados pela polícia em meio a estádios de futebol ou fantasiados em pleno carnaval, conta Moizio, da NEC. Cidades como Tigre, na grande Buenos Aires, Caraguatatuba, Salvador, Campinas, viram seus índices de violência diminuir e a economia voltar a se recuperar após o uso de inteligência artificial.
Praticamente toda essa revolução terá um caminho em comum: a rede de energia com incentivo de produção de energia limpa. O CEO da área de Smart Infrastructure da Siemens, Sérgio Jacobsen, mostra que os estágios ainda diferem de acordo com o país. Enquanto a Europa já está trabalhando com vistas à mobilidade elétrica, carbono zero e uso da energia renovável em prédios inteligentes, no Brasil estamos na fase de aplicação de machine learning na rede elétrica para evitar roubo ou desvio de carga. Mas por aqui já se vê o crescimento do uso mais eficiente de energia nos edifícios, com sensores em lâmpadas, aparelho de ar condicionado e computadores que, sensíveis à presença, luminosidade e mapa de calor nas salas acionam ou desligam equipamentos, reduzindo no mínimo em 25% o custo com energia.
O uso de energia, incluindo energia renovável, será tão central, aponta o CEO da Siemens, que deve levar a mudanças significativas nas empresas que atuam na oferta de bens e serviços. Um exemplo é o transporte público. A cidade de São Paulo havia começado a discutir novos modelos de concessão de transporte para expansão das linhas de ônibus elétricos, antes da pandemia. Com a necessidade de forte investimento em infraestrutura, por um lado, e por outro, com o ganho na redução de custo de fabricação, de manutenção, de combustível, maior vida útil dos veículos, menor nível de ruído para a cidade, menor poluição e ganhos em saúde, só para ficar em alguns exemplos, não faz sentido pensar no modelo de concessão atual.
“Mudam os players”, diz Jacobsen. “O ônibus elétrico passa a ser um acumulador de energia andando pela cidade, com custos menores”, explica, o que aguça interesse de empresas de energia, fabricantes de carrocerias e mesmo de fundos de investimentos para operar o transporte público.
Outro setor que se beneficia muito é o de saúde. O Hospital das Clínicas de São Paulo desenvolveu, por exemplo, um algoritmo baseado em informações de pacientes com covid-19 que ajudou muitos hospitais pelo interior do país a fazer melhor diagnóstico e tratamento da doença, conta o médico Giovanni Cerri, do Instituto de Radiologia do HC e um dos líderes das pesquisas com IA no país. A conexão nas cidades poderá reduzir as barreiras para o acesso à saúde e desigualdade na momento do tratamento, dois dos maiores desafios do setor, resume Cerri.
Fonte: Valor Econômico - Suplementos, por Carlos Raíces - para o Valor, de São Paulo, 30/11/2020

