Os esforços de proteção dos rios, lagos, mananciais e bacias hidrográficas da Mata Atlântica têm nova aliada a partir desta semana. A ONG Fundação SOS Mata Atlântica lança uma nova ferramenta para predizer a qualidade da água nesses locais desde que mantidas suas dinâmicas atuais. Desenvolvida em cooperação técnica com a multinacional de softwares Microsoft e a consultoria EloGroup, a plataforma utiliza algoritmo próprio para extrair as tendências de comportamento dos cursos dos dados de medição acumulados pela ONG nos últimos 18 anos, agora abrigadas em nuvens da Microsoft.

O geógrafo e coordenador do Observando Rios, Gustavo Veronesi, define a nova ferramenta, aberta ao público no site do projeto, como um “incremento decisivo” no trabalho de monitoramento sistemático da qualidade da água de 230 rios, realizado desde 2003 com a ajuda de 3,5 mil voluntários coordenados pelos técnicos da organização. O objetivo é usar as projeções para subsidiar e pressionar governos e seus órgãos ambientais a criar ou ampliar políticas de preservação.

“Mostramos nosso trabalho para a Microsoft no início do ano passado. Eles estavam abertos a desenvolver soluções para os nossos problemas e indicamos este projeto porque a questão da água se faz cada vez mais presente. Tivemos a crise hídrica de 2013 e 2014, o recente episódio da geosmina nas águas do Rio de Janeiro, rios e baías flagrantemente poluídos, tudo no país com as maiores reservas de água do mundo”, diz Veronesi. “Iniciada a parceria, foram meses de trabalho conjunto, com profissionais de tecnologia da informação em contato direto com nossos técnicos.”

A parceria se inscreve no programa “AI for Earth” da Microsoft, que promove investimento em pesquisa, desenvolvimento de IA e tecnologia nas áreas de mudanças climáticas, agricultura, biodiversidade e água. A empresa integrou o projeto ao seu guarda-chuva de colaborações em maio de 2019.

Abdala não revela o montante investido pela Microsoft na iniciativa, mas afirma que a mobilização de recursos já existentes supera o esforço financeiro. “Não precificamos a perspicácia de unir um conjunto de elementos para desenvolver essa solução. Mas o conjunto de ativos da Microsoft envolvidos, como conhecimento prévio, plataforma de nuvens e capacidade de agregar parceiros, superou em muito o investimento direto”, diz. No Brasil, disse, as iniciativas ambientais da Microsoft também envolvem projetos com o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), que mede o desmatamento com base em imagens de satélite e a mineradora Vale.

A plataforma permite que o usuário selecione o Estado cujos rios deseja investigar ou uma bacia hidrográfica em específico. Depois, é possível escolher um curso d’água e um ciclo de monitoramento, e obter informações sobre uma medição, a série histórica da qualidade da água, os índices de coleta e tratamento de esgoto da localidade, além do inédito prognóstico para a situação do local no horizonte de um ou cinco anos.

Varonesi diz que a ferramenta só foi possível graças aos anos de acúmulo de informações. Desde 2003, os voluntários - em sua maioria universitários envolvidos em atividades de extensão, mas também grupos escolares e comunitários - espalhados em 17 Estados possuem uma identificação e senha para transmitir os resultados de seu trabalho em 343 pontos georreferenciados para o sistema que está na origem da base de dados da nova ferramenta.

Todo ano a rede realiza de 1.700 a 2 mil análises, em que são coletadas informações como nível de oxigênio, temperatura, pH, coloração, odor, quantidade de lixo flutuante e presença de peixes.


Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Gabriel Vasconcelos - do Rio, 30/11/2020