A privatização do complexo de Interlagos divide opiniões sobre os efeitos do projeto para a cidade de São Paulo. Os defensores argumentam que a prefeitura poderá se concentrar na gestão das atividades consideradas essenciais, enquanto os críticos reclamam da falta de transparência do processo.
O Projeto de Lei foi aprovado em primeiro turno pelos vereadores em 8 de novembro. Antes da segunda votação, ainda sem data definida, serão realizadas audiências públicas para discussão com a sociedade civil. A expectativa é de que o texto seja submetido à segunda votação ainda este ano. Se for aprovado, será encaminhado à sanção do prefeito João Doria (PSDB).
Defensor da privatização, Fernando Vernalha, do escritório Vernalha Guimarães & Pereira Advogados, acredita que a iniciativa privada tem condições de fazer uma gestão mais eficiente e rentável desse equipamento público, que tem área de cerca de 1 milhão de metros quadrados. "Não faz sentido o Estado arcar com a gestão e a manutenção do complexo de Interlagos", diz.
Segundo ele, o projeto impõe contrapartidas para o vencedor do leilão, como a preservação do Parque de Interlagos e a exploração comercial da área em conformidade com o Projeto de Intervenção Urbana (PIU). Além do parque, faz parte do complexo o autódromo e o kartódromo.
Professor de economia da Fundação Escola de Sociologia Política de São Paulo (Fesp), Jorge Félix critica a forma de condução do processo. A pressa da prefeitura em incluir diversos equipamentos públicos no programa de privatização impede o aprofundamento do debate sobre a eficácia para o município.
Segundo Félix, não há como avaliar se a cidade ganha ou perde com a privatização do complexo de Interlagos. "Teria que haver um amplo debate sobre os motivos para privatizar", diz, que defende também a realização de um auditoria externa para saber se a sua operação é lucrativa ou se causa
prejuízo aos cofres públicos.
Outro ponto é que não houve preocupação sobre o grau de exclusão da população local. Para Félix, se o uso dos equipamentos públicos está ficando cada vez mais restrito, em decorrência de um processo de elitização, a função da prefeitura é buscar formas de garantir o acesso das pessoas e não promover a privatização.
Sobre a situação financeira, a SPTuris, empresa responsável pela administração do complexo de Interlagos, informa que não faz balanço por equipamento ou serviço público. "O balanço é conjunto porque as áreasmeios são utilizadas por toda a empresa e não tem como separar esses custos".
Se o projeto de privatização for aprovado, o novo gestor terá autonomia para decidir se mantém ou não o Grande Prêmio do Brasil de Fórmula 1, disputado em Interlagos. O contrato da Fórmula 1 com a SPTuris termina em 2020.
De acordo com a SPTuris, este ano foram desembolsados R$ 44 milhões referentes a contrato para a infraestrutura do evento. A prefeitura gastou R$ 7 milhões para a realização de serviços na pista, enquanto as obras no Paddock, orçadas em R$ 14 milhões, foram financiadas pelo Ministério do Turismo.
A tendência é que o contrato seja renovado porque o evento traz benefícios econômicos - estima-se que movimentou R$ 280 milhões na cidade com turismo este ano - e a sua realização faz parte do projeto de exploração comercial do complexo de Interlagos, acredita Vernalha. "É uma tradição de mais de 45 anos que deve continuar", afirma, ressaltando que o ponto central é que, com a privatização, o município deixa de ser ator nesse processo.
Inaugurado em 1940, o autódromo de Interlagos entrou para o calendário oficial do Campeonato Mundial de Fórmula 1 em 1973. Naquele ano, a corrida foi vencida pelo brasileiro Emerson Fittipaldi. O GP Brasil de F-1 foi disputado no circuito de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, em duas oportunidades. No ano de 1978 e no período de 1981 a 1988. Em 1989, o GP voltou definitivamente para o autódromo de Interlagos.
Fonte: Valor - Empresas, por Inaldo Cristoni , 28/11/2017

