As discussões em torno de ESG (Environmental, Social and Governance, na sigla em inglês) têm sido cada vez mais latentes entre investidores, profissionais de relações com investidores (RI) e grandes executivos. Porém, propomos um olhar mais profundo sobre o tema.
O termo “ESG” surgiu no começo da década de 2000, introduzido por um nicho de investidores com uma visão holística sobre as aplicações, a fim de ampliar a necessidade de investimentos responsáveis. Eventos naturais extremos como o furacão Katrina, nos EUA, também trouxeram à tona a fragilidade na identificação e mitigação de riscos fora do âmbito financeiro, tornando-se um grande marco para o movimento.
Nos tempos atuais, a pandemia da covid-19 e todas as suas consequências socioeconômicas negativas - mas um respiro para a regeneração ambiental -, possibilitou uma nova reflexão sobre o tema e fez com que investidores, que até então eram mais propensos à visão de curto prazo ou hedge funds, passassem a olhar para o assunto de forma mais sensível e criteriosa.
Hoje notamos a valorização do tema, com empresas se posicionando de forma mais clara e, de modo geral, tentando tirar lições e perspectivas futuras de todo o caos que o mundo enfrenta. Uma recente avaliação do World Business Council for Sustainable Development (WBCSD) apontou que 31 companhias filiadas à entidade performaram melhor no início da pandemia.
Diante deste movimento em ascensão, percebemos diferentes níveis de maturidade dos investidores. Não podemos negar que os estrangeiros estão mais preocupados com a necessidade de mudanças socioambientais, influenciados por décadas de debates. O continente europeu já avança com iniciativas sólidas para uma retomada verde, como o “Green Deal Europeu”, e as recentes discussões acerca da taxonomia dos aspectos ESG.
No início de 2020, a tradicional carta anual para CEOs de Larry Fink, da BlackRock, trouxe suas preocupações em relação a questões ambientais. Segundo ele, “alterações climáticas tornaram-se um fator decisivo nas perspectivas das empresas a longo prazo”. Como a maior gestora de investimentos do mundo, controlando US$ 7 trilhões, tal posicionamento não está restrito apenas a um nicho, mas é uma reflexão de que tudo está interconectado.
Isso significa uma quebra de paradigmas e mudança de mindset, e demonstra que esse é um caminho sem volta. Com o novo pensamento, o investidor institucional já não pensa apenas onde pode alocar seu capital a fim de buscar um retorno imediato. A pergunta-chave torna-se: onde o capital financeiro pode correr um menor risco diante de aspectos não financeiros ou que ainda não foram monetizados?
No entanto, o que empresas e investidores precisam entender e refletir é que a implementação de uma cultura ESG vai além do conceito literal da sigla. É preciso ter um propósito muito claro e bem definido. As questões socioambientais são mais profundas e exigem mudanças de hábitos que estão ligados à diversidade, inclusão social, redução de impactos ambientais, assim como clareza quanto aos caminhos da descarbonização.
Já na perspectiva de governança, houve sempre um foco em aspectos contábeis. Porém, nos últimos anos, a credibilidade dos executivos, composição do conselho de administração considerando aspectos de gênero e diversidade, ética nos negócios e remuneração de executivos passaram a ser fatores importantes e que podem afetar o rumo dos negócios.
No Brasil os números ainda são tímidos. Recente pesquisa da MZ Consult mostra que apenas 11% das empresas possuem mulheres em cargos executivos ou no conselho. Além disso, temos pouca cultura de investimento no mercado de capitais, em relação a outros países. Em 2019, o país contabilizou 328 empresas listadas na B3, enquanto nos EUA são mais de 5 mil listadas na Nasdaq e na bolsa de Nova York (Nyse).
Esse é, sem dúvida, um grande desafio para as companhias brasileiras, em especial as que fazem parte do IBrX-100 e servem como referência para o mercado de capitais. Implantar o ESG em sua cultura inclui a contratação e seleção de fornecedores sob a ótica socioambiental e de diversidade; alocação de recursos para novos empreendimentos com análise criteriosa dos impactos; e a remuneração de desempenho atribuída e integrada a esses aspectos. Teremos um mercado sólido em métricas de ESG no dia em que os valores de uma empresa não forem apenas medidos pelo seu desempenho financeiro, mas, sim, por um contexto muito mais amplo.
Ainda é cedo para avaliar e comparar a performance de companhias que incorporam aspectos ESG na estratégia de negócios daquelas que ainda caminham a passos lentos. Mas certamente uma companhia que incorpora aspectos de forma holística apresenta facilidade para inovar, capacidade de se adaptar a crises e se antecipar às questões que possam afetam a perenidade de negócios.
No Brasil o caminho ainda é longo, ainda mais considerando-se que o país tem questões socioeconômicas não endereçadas. Por outro lado, há um leque de oportunidades que pode levá-lo a se tornar referência no tema, considerando sua matriz energética majoritariamente limpa, o território geograficamente diverso e uma sociedade que pode prosperar diante desses benefícios. É um desafio, mas o otimismo é ainda maior.
Marilia Nogueira é gestora executiva de relações com investidores da EDP Brasil
E-mail: marilia.nogueira@edpbr.com.br
Dominic Schmal é gestor executivo de Sustentabilidade da EDP Brasil
E-mail: dominic.schmal@edpbr.com.br
Este artigo reflete as opiniões do autor, e não do jornal Valor Econômico. O jornal não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso destas informações.
Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Marilia Nogueira e Dominic Schmal, 26/11/2020

