Em um momento que o Ibovespa supera a marca de 110 mil pontos, não há expressão que defina melhor o mercado do que “contra fluxo não há argumentos”. O principal índice da bolsa de valores já acumula alta de 17% no mês, muito em função do retorno dos estrangeiros para o mercado local. Gestores afirmam que o rali de novembro ainda pode continuar com a entrada de capital estrangeiro na bolsa. No entanto, esse é um equilíbrio delicado, dado que o fluxo vem na esteira do cenário global e não é algo específico do Brasil.
Ontem, o Ibovespa encerrou o pregão em alta de 0,32%, aos 110.133 pontos, e consagrou o terceiro pregão consecutivo de ganhos. Até segunda-feira, conforme dados da B3, o investidor estrangeiro ingressou liquidamente com R$ 26,71 bilhões.
O retorno do estrangeiro ocorre de acordo com o fluxo global para mercados emergentes e pelo movimento de rotação de carteiras, em que os investidores partem em busca daquelas ações que ficaram para trás na crise. No longo prazo, porém, os fundamentos não foram alterados e esse movimento arrisca ser “transitório” ou de curto prazo.
Para Leonardo Morales, gestor e responsável por equities da ASA Asset, a entrada do estrangeiro ainda tem espaço, mas talvez em menor intensidade. “Se não tivermos agravamento de uma segunda onda [de contágio de covid-19] no Brasil e mais discussões sobre extensão de auxílio, que seriam ruins para o fiscal, poderemos ter uma rodada de alocações em dezembro e janeiro de 2021”, afirma.
Logo, o mercado local não vai ficar descompassado com o resto do mundo, principalmente, em um momento mais favorável a ativos de risco e excesso de liquidez, afirma o gestor de renda variável da Western Asset, Cesar Mikail. No entanto, a incerteza local impede uma participação maior do investidor daqui. Por mais que a bolsa esteja avançando, o gestor destaca que outros ativos, como os juros futuros, seguem bem pressionados. “A bolsa andou e o juro não tombou. Isso mostra que a temperatura está alta. Precisamos fazer as reformas”, explica. “Para o mercado local andar mais, o estrangeiro precisa avançar. Não acho que o local vai puxar”, acrescenta.
Apesar do impulso vindo do fluxo, ainda há cautela uma vez que os fundamentos da economia não mudaram. “Não vejo esse movimento como uma mudança de fundamentos. Há uma alegria por trás da vacina que leva a uma crença de que as coisas vão voltar ao normal, mas não muda tendência [fundamento] de longo prazo”, diz Frederico Sampaio, diretor de renda variável da Franklin Templeton.
O gestor de fundos da Pimco, Ismael Orenstein, concorda que o dinheiro que tem chegado ao país neste momento vem de forma “passiva”, por meio de clientes que querem aumentar sua exposição a mercados emergentes de forma genérica. “É um fluxo que não compra Brasil necessariamente porque gosta daqui”, disse em evento on-line do Santander.
Já os fluxos mais ativos - que podem ir para qualquer lugar do mundo - não estão procurando o Brasil. “E os motivos são claros: o fiscal está desorganizado, não se tem mais perspectiva de retorno a razões de dívida/PIB razoáveis - não se sabe nem a política fiscal para o próximo mês -, e não se tem juros. Enquanto no passado, o Brasil era um país que tinha riscos fiscais, políticos e volatilidade, mas era compensado com Selic alta. Hoje, com juros reais negativos, não tem como”.
Além do fluxo ser global, Enrico Cozzolino, estrategista de renda variável do Daycoval Investimentos, acredita que ainda há muitas incertezas. Dessa forma, a projeção para o Ibovespa em 2020 está mantida em 105 mil pontos, apesar do rali recente ter levado o índice para o patamar dos 110 mil pontos. “O fato de que a vacina tem tido avanços acaba trazendo euforia para os mercados, mas é de curto prazo, até porque não está confirmada”, afirma.
Segundo ele, aparentemente o fluxo estrangeiro está de volta ao Brasil, mas também é cedo para afirmar se é uma tendência até o fim de 2020 e 2021. Até porque no patamar atual, de 110 mil pontos, pode ter ficado caro aos olhos deste tipo de investidor. “Não teve mudança de política ou diretriz econômica. Além disso, o coronavírus não melhorou e até volta a piorar um pouco. O estrangeiro comprou bolsa barato e talvez possa achar que em 110 mil pontos não vale o risco”, afirma.
No caso de uma surpresa positiva no cenário local, existe potencial para a bolsa com chance de novos aportes até dos investidores locais. “Se vier alguma coisa positiva de reforma ou que limite o risco de estouro do teto, o local vai voltar com tudo. Assim, a bolsa contaria com duas forças na mesma direção positiva”, diz Tiago Sampaio Cunha, gestor da Grou Capital.
“O Brasil está muito ‘underweight’ [abaixo da média] nas posições dos estrangeiros há anos. Se tiver um movimento de realocação para mercados emergentes e Brasil, ainda pode ter muito fluxo. O cenário local é um componente importante, mas não é o determinante para esse movimento”, acrescenta.
Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Lucas Hirata, Marcelle Gutierrez e Marcelo Osakabe - de São Paulo, 26/11/2020

