A forte redução da absorção doméstica, sobretudo do consumo, piorou as perspectivas do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas para 2016. Prevendo que, no próximo ano, a soma da demanda das famílias, do governo e dos investimentos cairá ao nível de 2009, a equipe de conjuntura do Ibre cortou sua projeção para o desempenho do Produto Interno Bruto (PIB) no período, de queda de 2,1% para retração de 3%.
As novas estimativas estão no Boletim Macro de novembro, divulgado com exclusividade ao Valor, e serão apresentadas hoje em seminário no Rio. Em 2015, a expectativa do Ibre para o PIB foi mantida em recuo de 3,3%. Somando os dois anos, o instituto destaca que o consumo das famílias deve diminuir mais de 6%. Com tombo acima de dois dígitos da Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF, medida do que se investe em máquinas, equipamentos, construção civil e pesquisa) previsto para este ano e também para o próximo, a demanda interna deve encolher 9% no biênio.
"O ajuste do mercado de trabalho ainda está em processo, de modo que seus efeitos sobre a atividade econômica e o crédito ainda não estão totalmente materializados nos dados: contrações adicionais ainda acontecerão", observam, no documento, a coordenadora técnica do boletim, Silvia Matos, e o pesquisador Vinícius Botelho, responsáveis pela seção de atividade.
Como o impacto da trajetória negativa da economia sobre a renda deve se concentrar em 2016 o Ibre trabalha com retração de 4,3% para a massa salarial real no ano que vem, considerando a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua os dois economistas avaliam que o setor de serviços, que representa mais de 70% do PIB, não terá recuperação.
"2015 acabou pior que o esperado e deixou uma conta mais salgada pra 2016", diz Silvia. Nas previsões do Ibre, a média anual da taxa de desemprego, também pela Pnad Contínua, vai subir três pontos percentuais entre 2015 e 2016, para 11,5%. Essa deterioração, associada ao aperto no crédito uma vez que o cenário de queda do juro básico no segundo semestre do próximo ano foi adiado, devido à inflação elevada indica que a economia brasileira demorará mais tempo do que o previsto anteriormente para sair da recessão, afirma a economista. "Isso deve começar mais para o fim do ano que vem."
Do lado positivo, os especialistas em inflação do instituto esperam que os dois anos de intenso ajuste para baixo da demanda repercuta, finalmente, nos reajustes do setor de serviços. Segundo Silvia, o conjunto que reúne preços como cabeleireiro, aluguel e empregada doméstica deve subir entre 6,5% e 7% em 2016, depois de encerrar este ano com alta de 8,1%. Mesmo assim, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) vai superar novamente o teto da meta no período, com alta de 7% nos cálculos do Ibre, devido ao repasse cambial e a correções residuais em tarifas administradas.
Segundo a coordenadora do boletim, um efeito maior da atividade em contração sobre a inflação de serviços pode ser uma surpresa favorável no ano que vem, assim como um comportamento menos catastrófico da indústria. As sondagens de confiança empresarial do Ibre mostram que o setor industrial foi o que registrou melhora mais expressiva em outubro, influenciada pela avaliação mais positiva da demanda externa e pela diminuição da proporção de empresas com estoques excessivos.
O superintendenteadjunto de ciclos econômicos do Ibre, Aloísio Campelo, afirma no boletim que é possível perceber aceleração da substituição de importações, especialmente de bens intermediários e, no front externo, aumento da confiança das empresas exportadoras. Por outro lado, ele pondera que "a resiliência do pessimismo no horizonte mais longo, de seis meses, sugere cautela e, novamente, mais tempo para se falar em uma inversão consistente de tendência.
Fonte: Valor - Brasil, por Arícia Martins , 23/11/2015

