O pico de inadimplência no crédito deve ocorrer no primeiro semestre de 2021, mas tende a ser menor do que o esperado quando começou a crise causada pela pandemia do coronavírus, disse ontem Otávio Damaso, diretor de regulação do Banco Central, em evento da Federação Brasileira de Bancos (Febraban).
“A fotografia que temos do retorno à normalidade pós-pandemia é de algum aumento na inadimplência, cujo pico deve ocorrer no primeiro semestre. Mas se voltasse ao cenário de março e abril [início da pandemia], imaginava-se que o pico seria muito maior do que efetivamente vai ser. A gestão feita pelas instituições financeiras foi muito positiva”, avaliou o diretor do BC, sem apontar detalhes de quanto será esse nível de calotes.
Conforme os últimos dados divulgados pelo regulador, a inadimplência média das operações de crédito no sistema financeiro atingiu 2,4% em setembro.
Para Damaso, não está descartado um aumento dos riscos no mercado de crédito após o fim das medidas prudenciais adotadas para o enfrentamento da crise, mas o Banco Central já mapeou esses prováveis desafios.
“A maioria das medidas regulatórias, dos programas de suporte ao crédito, estão em estabilidade ou em ‘phase-out’ automático, tudo está ocorrendo com muita tranquilidade. Algum dia tudo vai voltar à normalidade, independentemente de ter segunda onda [de pandemia] ou não”, explicou.
O presidente da Febraban, Isaac Sidney, afirmou que a pandemia realmente colocou à prova a regulação prudencial do sistema financeiro que, por sua vez, soube adotar medidas que mitigassem os efeitos negativos para as instituições. “O Brasil passou com nota máxima”, disse ao participar do mesmo evento.
Ele comentou que nenhum setor da economia ficou incólume à pandemia, inclusive os bancos. “Houve aumento de 90% das provisões, em média, e com isso queda relevante do lucro e a rentabilidade dos bancos (recuo de 40%) no primeiro semestre. O índice de Basileia, entre os principais bancos, caiu 15% e houve uma queda de indicadores de liquidez para patamares próximos a 2018”, apontou Sidney.
Além disso, a visão dos bancos foi afetada pela percepção de que não tinha crédito disponível no início da pandemia. “A demanda avançou de cinco a dez vezes, o que gerou essa percepção, mas na verdade isso não ocorreu”, justificou.
Segundo ele, o sistema bancário liberou R$ 2,6 trilhões em crédito desde o início da pandemia. Mais de 15 milhões de contratos tiveram as parcelas prorrogadas “dando alívio para as famílias e empresas”. “Fizemos parte da solução para a crise. Sem os bancos, os problemas seriam maiores e a recuperação estaria mais lenta.”
Ainda na visão de Ricardo Franco Moura, chefe do departamento de regulação prudencial e cambial do BC, se não fosse a adaptação do setor às regras de Basileia 3, o mundo, inclusive o Brasil, viveria uma crise bancária. O acordo prevê mudanças como a reformulação da estrutura de capital das instituições.
Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Fernanda Bompan e Estevão Taiar - de São Paulo, 18/11/2020

