Após cinco meses em alta, o Índice de Confiança Empresarial (ICE) da Fundação Getulio Vargas (FGV) caiu 0,4 ponto entre setembro e outubro, para 97,1 pontos, informou ontem a fundação. Foi a primeira queda desde o tombo de abril (-33,7 pontos), “fundo do poço” na economia da crise causada pela covid-19.

Para Aloisio Campelo Júnior, Superintendente de Estatísticas Públicas da FGV, o resultado se deveu a dúvidas sobre o consumo interno nos próximos meses.

Ele não descarta novas quedas, devido a possibilidade de expectativas menos favoráveis. Na análise do especialista, o fim do auxílio emergencial em dezembro e seu impacto na renda - ainda fortemente prejudicada por emprego em baixa - devem conduzir a novas projeções negativas por parte do empresariado. Isso pode reduzir ainda mais a confiança da iniciativa privada, admitiu ele.

Ao falar sobre aumento da cautela do empresariado quanto ao futuro, Campelo comentou o comportamento dos subindicadores componentes do ICE, em outubro. Enquanto o Índice de Situação Atual (ISA) subiu 3,6 pontos, para 96,6 pontos; o Índice de Expectativas (IE) caiu 3,1 pontos, para 97,9 pontos. No caso do IE, também foi primeira queda desde abril (-36,2 pontos).

Campelo notou que, dos quatro setores delineados pelo ICE, indústria e construção mantiveram saldo positivo em outubro. Mas serviços e comércio registraram baixa, ainda afetados pela pandemia.

Ele afirmou que a indústria tem sido favorecida por demanda em alta de bens não duráveis, como alimentos. Além disso, há movimento positivo de substituição de importações, acrescentou ele, com dólar em alta.

Em contrapartida, a economia de serviços, mais de 70% do PIB, ainda caminha a passos lentos na retomada, e isso é percebido no cômputo geral da confiança empresarial. Campelo comentou que esse setor foi, e ainda é, o mais afetado pela pandemia. Atividades como hotelaria ainda não conseguiram voltar para o mesmo cenário de antes da pandemia, notou.

Ao falar sobre os próximos meses, o especialista comentou que ainda há muitas incertezas. Além de fim de auxílio emergencial, o número de casos da doença continua alto. E, acrescentou ele, ainda existe segunda onda em países da Europa.

Não há como saber se haverá também no Brasil, comentou Campelo. Esses fatores influenciam diretamente o consumo interno e podem afetar ritmo da confiança empresarial. “É muito difícil dizer que a confiança vai cair com toda a certeza”, afirmou ele. “Mas as expectativas podem ter calibragem para baixo, e não vejo como ter alta exagerada em situação atual até o fim do ano”, enumerou, reconhecendo ser “provável” que o ICE não suba. “Pode ser que o indicador fique estável ou calibre para baixo.”


Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Alessandra Saraiva - do Rio, 04/11/2020