Quase metade dos analistas econômicos espera que a inflação supere a meta de 2023, de 3,25%, mostra o mapa da distribuição das expectativas de mercado, divulgado nesta manhã pelo Banco Central.

O desenho da distribuição das expectativas mostra um viés de alta nas previsões do mercado, em vez do formato de sino, que indicaria uma maior ancoragem das expectativas, com previsões distribuídas de forma equilibrada acima e abaixo da meta de inflação.

Apenas cerca de metade dos analistas acredita que a inflação ficará em torno da meta, dentro do intervalo entre 3,1% e 3,4%. Perto de 30% dos economistas preveem inflação maior que 3,4% até 3,7%. Ao redor de 15% citam percentuais maiores que 3,7%.

O viés de alta nas projeções de inflação de 2023 é um desafio para a credibilidade do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central. Em tese, num horizonte tão longo, um banco central crível teria boas condições de cumprir a meta.

A mediana das projeções de inflação para 2023 ficou estável em 3,27% na última semana. O fato de não terem se deteriorado no período é um primeiro dado positivo, depois de o Banco Central intensificar o ritmo de aperto monetário a 1,5 ponto na semana passada.

Um mês antes, em setembro, perto de 70% dos analistas econômicos confiava que a inflação ficaria ao redor da meta.

Há outros sinais preocupantes, porém, de desancoragem das expectativas de inflação. No ano de 2024, apenas cerca de 55% dos analistas projetam inflação em torno da meta, que está fixada em 3%. Os demais projetam inflação superior à meta. Um número expressivo, de cerca de um quarto dos analistas, cita percentuais superiores a 3,45% até 3,7%. A mediana das expectativas de inflação para 2024 subiu pela segunda semana seguida, de 3,02% para 3,07%.

O processo de desancoragem das expectativas de inflação de longo prazo, ainda nos estágios iniciais, intensificou-se depois que o governo anunciou que pretende driblar o teto de gastos públicos para pagar um novo Bolsa Família turbinado no ano das eleições.

O mercado passou a prever uma dose cada vez maior de juros para combater essas pressões inflacionárias. A mediana da taxa Selic esperada para o fim de 2022 subiu de 9,5% ao ano para 10,25% ao ano em uma semana. Cerca de 40% dos analistas econômicos esperam juros maiores do 10,25%, até 11,5%.


Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Alex Ribeiro, Valor — São Paulo, 01/11/2021