Para faixas mais pobres da população especialmente as famílias que ganham até dois salários mínimos por pessoa reformar a casa é uma prioridade porque traz ganhos para segurança, saúde (menos mofo e infiltrações), privacidade (número menor de pessoas dividindo um mesmo quarto) e maior possibilidades de convívio com amigos e lazer em casa.
A conclusão é de levantamento realizado pela consultoria Plano CDE, empresa especializada no comportamento das classes C, D e E. "Há uma grande mudança, meio invisível, ocorrendo no Brasil, a das reformas. Ela foi muito maior em números do que o Minha Casa, Minha Vida", diz Maurício de Almeida Prado, antropólogo e sóciodiretor da Plano CDE.
"As famílias de renda muito baixa muitas vezes não querem uma casa nova em um bairro distante, porque perdem a rede de apoio; amigos, família, igreja. O sonho é melhorar o lugar onde está", afirma Prado. A rede familiar e de amigos é importante, diz, para compensar a baixa presença do Estado nas periferias, áreas em que faltam creches e segurança pública.
Na visão do especialista, o programa que será anunciado pelo governo é complementar ao Minha Casa, Minha Vida, porque atinge segmentos mais vulneráveis de trabalho informal e sem condições de comprovar renda, exigência do "Minha Casa".
O antropólogo conduziu duas pesquisas com o intuito de entender o impacto social das reformas de casa. Um levantamento foi feito a partir de dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad). O outro, qualitativo, foi realizado por meio de entrevistas com 55 famílias de dois bairros da periferia de São Paulo Pedreira (região da represa Billings) e Jardim Ibirapuera, na zona sul.
A conclusão, diz Prado, é que melhorar a infraestrutura da casa toca em questões centrais para as classes C, D e E, como a segurança dos filhos e o conforto da família. Além de viabilizar o espaço para atividades que supram a falta de lazer na rua e o transporte caro, como filmes e internet. "A casa representa a segurança que a rua e o bairro não oferecem", afirma.
Os dados também mostram que, nas últimas duas décadas, aumentou o espaço nas casas das famílias das classes C, D e E, por causa das reformas, pequenas obras e "puxadinhos". Entre 1995 e 2014, o número de casas nesses segmentos com seis a dez cômodos incluindo banheiro e cozinha aumentou em 121%, passando de 9,5 milhões em 1995 para 21 milhões em 2014.
As casas de três a cinco cômodos também tiveram aumento expressivo (91%); eram 14,3 milhões em 1995 e chegaram a 27,3 milhões em 2014. Por outro lado, o número de casas muito pequenas um a dois cômodos , caiu 31%, de 1,6 milhão para 1,1 milhão. Na pesquisa, classes D e E são domicílios com renda familiar até meio salário mínimo per capita; e classe C, com mais de meio salário mínimo até dois mínimos per capita.
As classes C, D e E, nesse período, passaram a dividir menos quartos e ganharam privacidade. Aumentou, além disso, o número de casas em que a alvenaria substituiu paredes de madeira ou materiais de qualidade inferior. A proporção de moradias em que mais de quatro pessoas dividem um só quarto caiu de 12% para 4% entre 1995 e 2014.
Estimular reformas, no entanto, não será suficiente para resolver o déficit da habitação no Brasil. A estimativa é que atualmente haja um déficit de 6 milhões de moradias, segundo estudo do Departamento da Indústria da Construção da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), que aponta o programa Minha Casa, Minha Vida como um dos vetores para a redução de 2,8% do déficit entre 2010 e 2014.
Na visão de Prado, o programa de reformas resolve problemas mais estruturais, por exemplo, que o programa Minha Casa Melhor, que durou um ano e meio, de junho de 2013 até fevereiro de 2015. A meta era oferecer R$ 18 bilhões em crédito para a aquisição de móveis e eletrodomésticos aos
beneficiários do "Minha Casa". Cerca de 708 mil famílias foram cadastradas, mas o desempenho ficou bem aquém da meta. De acordo com a Caixa, operadora do programa, pouco mais de R$ 2,9 bilhões foram usados em compras nas lojas conveniadas.
Fonte: Valor - Brasil, por Ligia Guimarães, 31/10/2016

