O estoque de crédito bancário para as micro, pequenas e médias empresas (MPME) atingiu a velocidade anual de crescimento de 28% em setembro, puxado pelo conjunto de iniciativas que o governo tomou para prover linhas de financiamento a esse segmento durante a pandemia.
Com índices de expansão que não se via há quase uma década, as MPMEs tornaram-se nos dois últimos meses a parte mais dinâmica no crédito a pessoas jurídicas. As grandes corporações, que logo depois da pandemia sacaram linhas de crédito que tinham junto a instituições financeiras, registraram um crescimento do estoque de operações de 12,6% no período de 12 meses encerrado em setembro.
“Os dados indicam que os vários programas lançados pelo governo ao longo do ano foram bem-sucedidos, embora a gente não tenha pesquisas junto às empresas para avaliar o quanto elas se consideram atendidas”, afirma o chefe-adjunto do Departamento de Estatísticas do Banco Central, Renato Baldine.
Dados divulgados pelo BC, no entanto, não permitem concluir se todos os segmentos de empresas de menor porte estão encontrando igualmente o crédito de que precisam. A estatística agrega numa única série tanto as operações de microempresas quanto as de pequenas e médias, sem a abertura dos dados com mais detalhes.
Além disso, como o crédito a MPME está sendo puxado por linhas temporárias com garantias oficiais - e requerimentos mais leves de capital até o fim do ano -, ainda há dúvidas sobre o que vai sustentar a expansão do crédito ao segmento quando as iniciativas expirarem.
As estatísticas mostram um crescimento de 49,5% no trimestre nos “outros créditos direcionados”, em que são classificadas as operações de programas oficiais, como o Programa Emergencial de Suporte ao Emprego (Pese). Em reais, o estoque de empréstimos dos bancos nessas linhas subiu de R$ 96,7 bilhões para R$ 144,6 bilhões de junho a setembro.
O crédito direcionado vinha perdendo força desde 2016, depois que o governo reduziu a oferta, exigindo que o BNDES devolvesse recursos aportados pelo Tesouro em períodos anteriores. A queda dos juros básicos também tornou as taxas do crédito direcionado menos competitivas em relação a outras alternativas de financiamento.
O crédito bancário a empresas de pequeno porte cresceu rapidamente no começo da década, mas perdeu fôlego depois que os bancos passaram a registrar índices crescentes de inadimplência. As grandes empresas, por outro lado, começaram a se financiar sobretudo no mercado de capitais. O crescimento mais forte era observado nos empréstimos feitos a pessoas físicas.
No ano passado, o estoque de crédito às empresas encolheu 0,1%, enquanto que os empréstimos às famílias avançaram 10,7%. A pandemia alterou a configuração do crédito bancário. No período de 12 meses até setembro, o crédito a pessoas jurídicas avança 18,3%, enquanto que para pessoas físicas cresce 5,11%.
As concessões de crédito para empresas tiveram um incremento de 10,4% em setembro, comparado com agosto. As operações com recursos livres avançaram 10,6%, enquanto que as com recursos direcionados aumentaram 9,3%. Em 12 meses, o crédito total a empresas aumentou 14,7%, sendo 57,3% no direcionado e 11,8% no livre.
Baldine destacou, nos dados do crédito, o avanço das concessões de antecipação de recebíveis de cartão de crédito (incremento de 19,8% em setembro, ante agosto) e de desconto de duplicatas (alta de 18,3%). “Esse comportamento, ainda que sazonal, é importante porque sinaliza uma recuperação depois da pandemia do segmento de pequenas e médias empresas, que mais usam essas linhas de crédito”, diz Baldine
Os juros médios cobrados pelos bancos de pessoas físicas e jurídicas voltaram a cair entre agosto e setembro, de 18,6% ao ano para 18,1%, assim como os spreads bancários, que encolheram de 14,9 pontos percentuais para 14,3 pontos. A inadimplência recuou de 2,6% para 2,4%.
Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Alex Ribeiro e Estevão Taiar - São Paulo, 27/10/2020

