A mudança nos relatórios de auditoria contábil da PwC no Brasil começou este ano. Diante do cenário de combate à corrupção no país, a consultoria passou a adotar um modelo de documento mais detalhado e feito sob medida para cada empresa. Até o ano passado, a consultoria usava um texto padrão de conformidade para todas as empresas auditadas. Só havia alterações se os auditores fizessem alguma ressalva sobre as contas da empresa.
O novo padrão é uma resposta da consultoria ao aumento nas exigências relativas ao controle da corrupção, impulsionado pelos escândalos revelados no âmbito da Operação LavaJato a partir de 2015. "Vimos um avanço importante na aplicação da Lei Anticorrupção pelo Ministério Público e pela Polícia Federal nas últimas operações", avalia José Figueira, sócio da PwC Brasil.
A seriedade com que a comunidade de negócios encara essa lei, que entrou em vigor em 2013, está diretamente ligada à sua aplicação real, aponta Figueira. A pressão tem levado o mercado a se movimentar em busca de mais transparência. Uma pesquisa da Deloitte, em parceria com o Instituto dos Auditores Internos do Brasil, aponta que 82% dos auditores no Brasil acreditam que os sistemas de auditoria interna precisam passar por mudanças significativas.
Ronaldo Fragoso, líder de risk advisory da Deloitte no Brasil, observa que há uma mudança em curso na cultura das empresas do país. Antes, a contabilidade era vista como uma exigência burocrática. "Era uma área encarada muito mais como custo do que como benefício", diz. No entanto, nos últimos dois anos, as empresas brasileiras, os órgãos reguladores do mercado de capitais e as auditorias têm revisado suas práticas, com foco especial nas demonstrações contábeis. "É um processo positivo para todo o mercado, que vai resultar em balanços mais consistentes", avalia.
Para José Francisco Compagno, sócio líder da área de investigação e fraudes da EY no Brasil e na América do Sul, o segmento de perícias contra fraudes contábeis tem crescido acima de três dígitos nos últimos três anos, impulsionado por três fatores interligados: a Lei Anticorrupção, a LavaJato e o escândalo do Petrolão. "Muitas empresas têm contratado serviços de investigação interna, ao mesmo tempo em que implementam novos controles e sistemas de compliance e avaliação de risco", diz.
A contratação de serviços de due dilligence com foco anticorrupção também vem crescendo entre as consultorias. Assim como as pesquisas de antecedentes de fornecedores que integram a cadeia de suprimentos das empresas, num efeito dominó que aumenta o alcance das políticas de combate a fraudes e subornos. No campo da contabilidade, Campagno acredita que a tecnologia pode ser uma importante aliada na detecção de fraudes. Segundo ele, o avanço nos sistemas de análise de dados é uma ferramenta importante no combate à corrupção. "O big data pode ajudar a descobrir padrões contábeis que tornem mais fácil identificar fraudes", explica. No entanto, cada empresa deveria investir em sistemas customizados de acordo com seu perfil de risco. "Não há uma fórmula única. Se os programas não forem bem customizados, você perde muito tempo com alarmes falsos."
Leonardo Lopes, sócio na área de perícia da PwC Brasil, vai mais longe e observa que a própria governança deve ser customizada de acordo com o perfil de risco da empresa. "Tudo vai depender muito da área de atuação da companhia, da sua cultura corporativa, especialmente no relacionamento com terceiros", diz. "Os controles internos e externos devem levar isso emconta. Riscos maiores de fraude e corrupção exigem respostas mais robustas", afirma.
Implantação de canais de denúncia, criação de políticas de compliance e revisão de códigos de ética são algumas medidas que vêm sendo tomadas por grande número de empresas nos últimos anos. Mas o trabalho não deve se limitar a isso. Antônio Carlos Machado, presidente da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), observa que a vigilância precisa ser renovada constantemente. Afinal, ao mesmo tempo em que as empresas e profissionais de controle aprimoram suas técnicas, os corruptos não ficam parados. "Eles estão sempre buscando novas formas de burlar os sistemas de controle", diz.
Lopes concorda e destaca que o monitoramento dessas medidas é fundamental para que o combate à corrupção nas empresas seja efetivo. "É preciso prestar contas dessas ações e verificar sua aplicação", diz. Sem isso, argumenta ele, não é possível estimular de fato a valorização da ética no dia a dia das empresas. Nesse sentido, ganha importância cada vez maior a atuação dos conselhos fiscais e administrativos das companhias. Machado ressalta que os conselhos devem ser mais proativos na definição das estratégias e no estabelecimento de padrões de governança nas empresas. "Eles precisam exercer na plenitude o que está definido na Lei das S.A.", diz.
"O mercado enxerga valor em um conselho atuante, e as empresas precisam saber tirar proveito disso." Assim, o espaço para conselhos que atuem de forma burocrática, limitandose carimbar as decisões da administração em reuniões de rotina é cada vez menor. Campagno observa que os conselheiros andam mais preocupados em exercer corretamente suas funções, depois que passaram a ser corresponsáveis se houver negligência em casos de corrupção. "Sinto que eles ainda estão começando a entender esse novo ambiente de compliance", avalia.
Apesar de todos os avanços no combate à corrupção, os especialistas acreditam que ainda é preciso reforçar os sistemas de vigilância e governança corporativa nas empresas estatais e nas sociedades de economia mista. A reforma na Lei de Responsabilidade das Estatais é um passo importante nesse sentido. "Com isso, a sociedade exerce pressão nas duas pontas: na empresa privada e no governo", diz Figueira. "A transparência do governo é fundamental para atrair investimentos para o país", afirma. É importante observar, no entanto, que o movimento para tentar conter a corrupção e as fraudes contábeis é uma tendência global. Segundo o Forensics Data Analytics Report 2016, publicado pela EY no começo deste ano, 60% das empresas globais vão aumentar seus gastos com perícia de dados nos próximos dois anos.
Em questionário de respostas múltiplas, 77% das empresas pesquisadas apontam as fraudes internas como risco para seus negócios. Suborno e corrupção foram apontados por 68% das empresas, e fraudes no balanço financeiro, por 60%. A lavagem de dinheiro foi citada por 43% das empresas. Apesar de tudo, Campagno é otimista em relação ao cenário de transparência no Brasil. Ele acredita que as mudanças no mercado brasileiro vão reduzir consideravelmente o nível de corrupção no país.
"Não vamos chegar ao nível de países como Suécia ou Finlândia, mas certamente estaremos em um novo patamar depois dessa experiência", avalia. "Os executivos agora sabem as consequências de se permitir a corrupção, isso muda a postura das empresas."
Fonte: Valor - Especial, por Carlos Vasconcellos, 21/10/2016

