O setor de serviços registrou saldo positivo de vagas com carteira assinada em agosto pela primeira vez desde o início da pandemia, ao criar 45,4 mil postos, um número modesto, mas visto com certo alívio por analistas. Cerca de 40% dessas vagas, no entanto, são relacionadas a companhias que alugam mão de obra temporária para outras empresas, o que, para especialistas, sinaliza a fragilidade de recuperação não só do setor, mas do mercado de trabalho formal como um todo. Essa mão de obra pode ser alocada na indústria ou no comércio, por exemplo, em negócios que ensaiam retomada, porém em meio a incertezas demais para bancar contratação fixa, dizem.

Só em agosto, a chamada “locação de mão de obra temporária” gerou 18,4 mil vagas, ante 1.629 em igual mês de 2019, de acordo com o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). Em março e abril, pior momento para a categoria no ano, foram fechados cerca de 28 mil postos.

“No começo de uma crise, o trabalho temporário é o primeiro com demissões, porque tem mais excedente”, diz Vander Morales, presidente da Federação Nacional dos Sindicatos de Empresas de Recursos Humanos, Trabalho Temporário e Terceirizado (Fenaserhtt). “Quando começa um aquecimento, ainda que mínimo, da economia, as empresas percebem que estão com o quadro defasado. Muitas enxugaram além do que imaginavam.”

A magnitude dos números impressiona, segundo Fabio Bentes, economista da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). “De maio a agosto deste ano, foram 54,8 mil vagas criadas, é mais de dez vezes o saldo registrado no mesmo período de 2019.” Em uma série mensal de dez anos, o melhor saldo para a categoria havia sido 8.562 postos em março de 2010.

“A fragilidade e a incerteza por causa do crescimento econômico fazem com que empresas recorram a esse serviço em vez de contratar de forma fixa”, diz Bentes.

A consultoria de recursos humanos Adecco promoveu cerca de 1.200 contratações temporárias na primeira metade do ano, o que já seria um número expressivo, segundo Kerullen Sá, gerente de serviços e qualidade.

“Esperávamos queda, e até houve em algumas áreas, mas as contratações temporárias cresceram muito no pico da pandemia, abril e maio, principalmente para vagas mais operacionais nos ramos de delivery, e-commerce e saúde”, diz ela.

Na segunda metade do ano, até o momento, já foram mais 1.700 contratações temporárias e a expectativa é encerrar o período dobrando o resultado do primeiro semestre, diz Kerullen. “Mas agora vemos uma demanda também por cargos mais seniores, de liderança, com movimentação forte nas áreas de tecnologia, atendimento, operadores logísticos e a indústria como um todo, mas sobretudo automotiva e farmacêutica”, afirma.

Na Mazars, auditoria e consultoria que trabalha com “business process outsourcing” (BPO, ou terceirização de processos de negócios), o quadro de colaboradores aumentou cerca de 5% neste ano. A modalidade de “staff loan” (locação de mão de obra) é mais pontual, mas a procura por terceirização parcial ou temporária de serviços cresceu 50% em relação à demanda regular, diz Ricardo Rosati, sócio-líder de BPO. “Com a pandemia, empresas reduziram quadros, mas as obrigações tributárias, financeiras, contábeis permanecem. E tem a questão de se moldar a uma nova forma de operar, com redução de espaços e custos”, diz Rosati.

Bentes observa, no entanto, que, desde o fundo do poço do mercado formal de trabalho, em abril, o saldo de contratações intermitentes é de 22,7 mil (maio a agosto), abaixo dos 31,5 mil registrados no mesmo período de 2019. Na modalidade de contrato parcial, o saldo acumulado está até negativo (-18,8 mil), ante um resultado positivo de 7.032 em 2019. Para ele, isso indica que o movimento atual é um fenômeno novo. “As empresas, no pós-pandemia, estão recorrendo à mão de obra temporária terceirizada mesmo à luz das modalidades regularizadas pela reforma trabalhista.”

Em um ponto especialistas concordam: a retomada do emprego nos serviços deve continuar muito gradual e influenciada por essas vagas temporárias. “Essa modalidade tende a crescer nos próximos meses”, diz Rayne. A Tendências projeta saldo negativo de 900 mil vagas no Caged neste ano, com destruição de 440 mil postos nos serviços. Bentes lembra que o emprego temporário costuma aumentar na indústria em julho e agosto e no comércio de setembro a novembro.

Mas contratações temporárias podem ser uma tendência mais duradoura. “Não vamos ter condição de pleno emprego a curto prazo, vivemos ainda muitos altos e baixos, tem eleições, discussões das reformas. O mercado de trabalho é sensível a isso, porque emprego é resultado de política econômica segura, economia crescente e investimentos, e esse cenário não está no horizonte próximo do Brasil”, afirma Vander, da Fenaserhtt. “Uma coisa é o mundo voltar ao normal e, depois, a recuperação econômica chegar ao mundo real. Acho que no período de um ano vamos continuar com esse cenário modificado”, diz Rosati, da Mazars.


Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Anais Fernandes - de São Paulo, 20/10/2020