A previsão inicial da Associação Brasileira da Indústria de Materiais de Construção (Abramat) era terminar 2022 com alta de 1% no faturamento, de acordo com o Índice Abramat, feito pela FGV. O aumento era esperado mesmo levando em consideração a elevação de 8,1% registrada em 2021. No entanto, sucessivas quedas mensais do indicador fizeram com que a entidade reconsiderasse sua previsão: agora é esperada uma queda de 2,2%.

A associação divulgou também os valores do índice para setembro. O faturamento recuou 3,9%, na comparação com o mesmo mês de 2021. Em relação a agosto, a queda é de 0,7%.

No acumulado dos primeiros nove meses do ano, o faturamento do setor caiu 7,2%.

“Tivemos uma combinação de inflação e juros altos que minou a capacidade de consumo das famílias”, afirma Rodrigo Navarro, presidente da Abramat. Há uma melhora desses indicadores em andamento, ressalta, mas leva tempo para isso se refletir no orçamento dos consumidores.

Também prejudicou o faturamento a formação de estoque, para driblar a falta de itens e aumentos de preço. Segundo Navarro, isso aconteceu no varejo e também no setor de obras.

A Anfacer, associação que representa os fabricantes de revestimentos cerâmicos, também projeta queda nas vendas neste ano, mas de 14%. Como conta o presidente da entidade, Benjamin Ferreira Neto, após o segmento ter atingido seu melhor ano em 2021, com vendas 15% superiores ao registrado antes da pandemia, em 2019, já seria muito positivo conseguir terminar 2022 em estagnação. “Infelizmente, esses números não se confirmam, estamos voltando aos patamares de 2019, mas com custos de 2022”, afirma.

Segundo ele, o preço do frete é um dos problemas, e tem causado a queda da exportação dos revestimentos para a América Central e do Norte, porque estaria mais barato enviar os produtos da Europa, região dos maiores concorrentes do país.

Além das questões macroeconômicas do país, citadas por Navarro, Ferreira Neto também analisa que parte da retração das vendas pode vir de uma entresafra do consumidor, que correu para reformar sua casa durante a pandemia, quando passava mais tempo nela, e agora tem menos ajustes a fazer. “O grosso do que nós atendemos são reformas ‘formiguinha’, em que a pessoa faz um cômodo, depois o outro”, diz. No entanto, quem reforma sua casa pode levar muito tempo para realizar outra obra.

O presidente da entidade demonstra preocupação ainda com o corte no orçamento federal para o programa Casa Verde e Amarela em 2023, de 95%. “A cerâmica tem sido usada em todos os cômodos desses imóveis, mesmo no faixa 1, é fundamental esse investimento do governo”, afirma.

Pelo lado do consumidor, a queda nas vendas e no faturamento contribui para a estabilização do valor dos materiais, diz Navarro. “Os preços tendem a estabilizar ou cair um pouco, dependendo do segmento”, afirma.

Para 2023, ele aposta que o setor da construção civil será um dos principais polos de recuperação econômica do país, ao lado da agricultura, o que também melhoraria o faturamento do setor. Para isso acontecer, é preciso que a tendência atual de retração da inflação e de aumento do PIB continue ocorrendo.


Fonte: Valor Econômico - Empresa, por Ana Luiza Tieghi, Valor — São Paulo, 13/10/2022