Os dados correntes da atividade continuam a mostrar reação firme, mas a retomada em “V” de boa parte da economia pode ter vida curta. Segundo economistas, se mantido no nível atual, o aperto recente das condições financeiras como reflexo do aumento do risco fiscal terá efeito contracionista em 2021, especialmente no início do ano - quando já há pouca clareza sobre o ritmo do Produto Interno Bruto (PIB) após o fim dos auxílios e com um mercado de trabalho ainda fraco.

Mensurado em desvios-padrão acima ou abaixo da média histórica, o Índice de Condições Financeiras (ICF) do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV) terminou ontem em 1,02, depois de ter ficado os últimos 13 dias também acima de 1. Números abaixo de zero indicam condições financeiras frouxas, e, acima dessa linha divisória, apertadas. Em setembro, o índice começou o mês em 0,79.

O ICF agrega componentes de preços (commodities, petróleo e câmbio, por exemplo), de confiança e incerteza econômica, e variáveis do mercado financeiro, como índices das bolsas de valores nacional e internacionais, medidas de risco-país e spreads de juros. Todos os dados contribuíram com a piora, com destaque para a curva de juros, duramente afetada pela incerteza sobre a trajetória das contas públicas. Juros mais altos encarecem empréstimos. Um câmbio muito volátil e muito desvalorizado tira a previsibilidade das empresas que exportam e importam, além de encarecer as compras externas de bens de capital. Ações em baixa tendem a afetar a capacidade das empresas de investir e de levantar recursos.

Por medirem retornos de ativos financeiros com capacidade de prever a atividade econômica futura, além de conter as expectativas dos agentes, as condições financeiras são consideradas um bom antecedente do PIB um trimestre à frente. Por isso, a deterioração de agosto e setembro afetaria o nível de atividade no começo de 2021, um período já complicado devido à retirada dos estímulos, diz a pesquisadora Luana Miranda, uma das responsáveis pelo ICF do Ibre/FGV.

“Hoje vemos o varejo respondendo muito bem aos auxílios e a indústria reclamando da falta de insumos para atender a demanda, mas a grande questão é como a economia estaria rodando sem essas medidas”, pondera Luana.

Dados mais recentes confirmam que a retomada se manteve: o Índice de Gerentes de Compras (PMI, na sigla em inglês) da indústria brasileira atingiu nível recorde de 64,9 em setembro, vindo de 64,7 em agosto. Já o PMI do setor de serviços subiu de 49,5 para 50,4 na passagem mensal, primeira alta em sete meses. Números acima de 50 indicam expansão do nível de atividade.

Setembro foi positivo também para o setor automotivo, segundo balanço divulgado ontem pela Anfavea (entidade que reúne as montadoras). Após ajuste sazonal feito pela LCA Consultores, a produção de veículos cresceu 16,2% em relação ao mês anterior. Os licenciamentos avançaram 8,3%.

Já as condições financeiras indicam quadro inverso. Apesar da Selic nas mínimas históricas, a curva de juros tem se mostrado bastante inclinada, ou seja, o nível das taxas de longo prazo está bem acima dos juros de curto prazo.

A diferença entre os juros de um ano e os de cinco anos, que chegou a ser inferior a dois pontos percentuais antes da pandemia, agora já está acima de quatro pontos. Enquanto as taxas de curto prazo costumam ser guiadas pelas perspectivas para a política monetária, as de longo prazo tendem a ser mais sensíveis a questões mais abrangentes, como a situação fiscal.

De acordo com Cassiana Fernandez, economista-chefe para Brasil do J.P. Morgan, os preços do mercado embutem probabilidade muito grande de o governo não conseguir manter a credibilidade na política fiscal, não respeitando o teto e sem ter alternativas de médio e longo prazo que deem credibilidade à trajetória da dívida pública. “Sem essas medidas, o país entra em uma trajetória explosiva de dívida, o prêmio de risco teria de ser ainda maior e o impacto na confiança dos agentes também seria mais alto”, aponta Cassiana.

Segundo os economistas Carlos Kawall, Gustavo Ribeiro e Leonardo Costa, do ASA Investments, mantidos os níveis atuais de juros futuros, risco-país, Ibovespa e outros indicadores, o crescimento em 2021 seria de 1,2%. A projeção atual é de 2,1%.

“As consequências de se flexibilizar ou burlar o teto de gastos podem, contudo, ser ainda mais sérias e nos colocar numa trajetória de recessão, o que poderia acontecer se as condições financeiras observarem nova deterioração de magnitude similar à das últimas duas semanas”, alertam Kawall, Ribeiro e Costa.

Luana, do Ibre/FGV, observa que o “vaivém” de propostas do governo para um programa de renda básica substituto do Bolsa Família trouxe muita volatilidade aos mercados, levantando dúvidas sobre quais serão suas fontes de financiamento e acerca da sobrevivência do teto. Enquanto esse impasse não for resolvido, não é possível vislumbrar melhora das condições financeiras, diz ela, o que coloca viés de baixa na estimativa atual do Ibre de crescimento de 3,5% para 2021.

Essa também é a avaliação do economista-chefe da Truxt Investimentos, Arthur Carvalho. A gestora, no momento, trabalha com alta de 3% para o PIB no próximo ano, mas alerta que há riscos de crescimento menor. “Além das condições financeiras, o grau de incerteza, que é refletido, por exemplo, na volatilidade do câmbio, também eleva os riscos de que não tenhamos uma recuperação tão forte dos investimentos”, acrescenta Carvalho.

Do lado positivo, em sua visão, parte da poupança acumulada neste ano pelas famílias mais ricas pode virar consumo no ano que vem. Esse fator, junto a um programa de transferência de renda que não levante questionamentos sobre a sustentabilidade da dívida, pode ser suficiente para gerar crescimento de 3% em 2021, apesar do impulso fiscal negativo, avalia o economista.

Já Cassiana, do J.P. Morgan, afirma que sua projeção de avanço menor do PIB no período, de 2,5%, reflete maior ceticismo quanto a uma solução de médio prazo para a questão fiscal. “Por mais que eu acredite que o governo vá respeitar o teto, ainda tenho muitas dúvidas sobre se ele vai conseguir aprovar reformas de médio prazo que permitam passar uma credibilidade maior de que manterá uma trajetória sustentável da dívida pública.”

Em um cenário de gastos públicos mais elevados no próximo ano, a economista avalia a possibilidade de um aperto ainda maior nas condições financeiras, o que mais que compensaria “0,5 ponto ou 0,6 ponto” a mais no PIB de uma possível decisão do governo de gastar acima do teto” em termos de crescimento.


Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Arícia Martins e Victor Rezende - de São Paulo, 08/10/2020