O home office “para sempre” chegou. Empresas estão abrindo vagas remotas permanentes ou garantindo expedientes a distância, sem prazo de retorno, de acordo com a escolha dos funcionários, mesmo depois da pandemia. Não há diferença de salários ou no pacote de benefícios e os funcionários que optam por ficar em casa ganham subsídios para internet e contas de energia.

A maioria das posições está nas áreas administrativas das companhias, com maior adesão de departamentos como tecnologia, vendas e finanças. Em cinco grandes empresas ouvidas pelo Valor foram abertos ou mantidos 2.050 postos elegíveis a jornadas fora dos escritórios, entre maio e o início de setembro, sendo 60% com a opção de permanecer remoto em definitivo.

A Ambev Tech, hub de tecnologia da cervejaria Ambev, criou mais de 100 vagas, em todo o país. A unidade responsável pelas posições fica em Blumenau (SC), com operações em Maringá (PR), Sorocaba e Campinas (SP), mas candidatos de outros estados não vão precisar se mudar. “Podem optar por um modelo 100% home office, mesmo se já moram nessas cidades”, diz a head de pessoas Fabiana Reinert.

A empresa ajuda com os custos para montagem do escritório doméstico, envia equipamentos e garante um subsídio mensal para despesas - como internet e energia. No momento, as oportunidades se concentram na área de tecnologia, para posições técnicas; como desenvolvedor, arquiteto de software e engenheiro de dados, mas há cargos seniores e de liderança. Os salários variam de R$ 3,5 mil a R$ 26 mil. Fabiana diz que a Ambev Tech, que reúne mais de mil funcionários, tinha, antes da pandemia, cerca de 5% dos profissionais em home office permanente. “Ao expandir o modelo, agregamos diversidade às equipes, com profissionais em qualquer lugar do mundo.”

Na Ticket, com 550 funcionários, o efetivo da área comercial, ou 28% da força de trabalho, já estava 100% no home office desde 2012. Com a pandemia, o padrão continua para os próximos contratados do setor, diz o diretor de recursos humanos José Ricardo Amaro. Para as demais áreas, o planejamento inclui ampliar um modelo híbrido de trabalho, com até três dias de expediente, por semana, em casa.

O controle de horário é realizado com um sistema de marcação de ponto remoto, via computador ou celular, que fica disponível para consulta de horas em tempo real a todos. Tanto para quem fica em home office quanto para quem costumava ir aos escritórios, a carga de trabalho é a mesma. Os salários e benefícios também são iguais, para a mesma função.

A empresa usa ferramentas de avaliação de desempenho e programas de educação continuada para os “remotos”, que também recebem notebook, fones de ouvido, celulares, softwares de comunicação e de videoconferência. Há verba para montagem do ambiente de trabalho. Em pesquisa interna, 90% dos funcionários garantem que já têm as ferramentas adequadas. Mesmo com um retorno escalonado à empresa, que começou, por grupos no dia 21 de setembro, o plano da Ticket é ter 40% menos funcionários nos escritórios. Um levantamento interno indicou que a maioria quer permanecer até três dias, por semana, em home office.

Na Supergasbras, distribuidora de gás com 4 mil funcionários, 1,3 mil empregados continuam a distância e 850 deles, da área administrativa, serão elegíveis ao SuperFlex, programa com início previsto para novembro, que dará liberdade de escolha sobre o local de trabalho. “Nesse modelo, o colaborador não precisa optar pelo home office ‘para sempre’”, explica a diretora de RH Glória Castro. “Ele ganha flexibilidade de escolher onde quer trabalhar.”

O novo sistema também dará à Supergasbras um panorama mais detalhado sobre as equipes. “Saberemos, por área, onde e quando os colaboradores trabalham, a frequência diária de pessoas no escritório e a quantidade de reuniões realizadas”, afirma. A ajuda no transporte será diminuída se houver menor utilização e o funcionário pode eleger o vale alimentação ou o refeição, de acordo com su necessidade. Haverá verba para energia e acesso à internet.

Júlio Cardoso, presidente da Supergasbras, afirma que um levantamento realizado com os colaboradores durante o confinamento constatou que 45% gostariam de ficar remotos entre três e quatro vezes na semana, 32% entre um e dois dias, 20% todos os dias da semana e 3% apenas quando houvesse necessidade. “O ideal é dar ao colaborador a escolha, com o dinamismo de mudar quando quiser”.

A Cognizant, multinacional da área de tecnologia e negócios, anunciou no início de setembro a abertura de 300 vagas no Brasil, todas remotas. A ideia é que, mesmo com o fim da pandemia, os novos contratados continuem a distância ou sejam alocados em clientes. Os processos seletivos seguem on-line e foram fechadas parcerias com universidades regionais para ampliar o garimpo de currículos.

Na XP foram contratadas mais de 800 pessoas no Brasil e no exterior desde o final de maio para o home office permanente - cerca de 20% das oportunidades foram para cadeiras de liderança. As contratações incluem profissionais de todas as áreas, com destaque para tecnologia e assessoria de investimentos, diz Lucas Aguiar, head de produtos de RH. Ainda há mais de 200 posições em aberto.

Caio Vaz, head da área de assessoria digital da XP Investimentos, começou a trabalhar na empresa em junho, quando ainda morava na China. Tentou voltar ao Brasil, mas teve cinco voos cancelados por três companhias aéreas. Quando finalmente conseguiu deixar o país, no início de setembro, planejou morar no Itaim, bairro próximo ao escritório, na capital paulista. “Agora que sei que posso trabalhar de qualquer lugar, talvez busque uma moradia no interior de São Paulo”, diz.


Fonte: Valor Econômico - Empresas/Carreiras - RH, por Jacílio Saraiva - Para o Valor, de São Paulo, 08/10/2020