O governo brasileiro começou a flertar com o populismo fiscal, acendendo um alerta no mercado financeiro. Voltou a circular entre executivos de bancos e gestores a discussão sobre uma eventual saída do ministro da Economia, Paulo Guedes, desgostoso com a situação ou expelido politicamente, e também sobre sua eficácia em implementar medidas de responsabilidade fiscal e conter arroubos do Planalto. Mas, mesmo sob uma saraivada de críticas, o mercado ainda enxerga no ministro a barreira contra o que os agentes financeiros já vêm chamando de “risco Dilma”.

“Sabemos como o populismo fiscal começa, com aumento de despesas sem contrapartida de redução, e sabemos como termina: aumento de prêmio de risco, aumento de inflação e taxa de juros, aumento de carga tributária e, por consequência, recessão. É Dilma outra vez”, diz um banqueiro, que preferiu não ser identificado.

Depois do anúncio do programa social Renda Cidadã, com a intenção do uso de precatórios para viabilizá-lo, o entendimento de executivos de grandes instituições financeiras é que o risco fiscal aumentou e que os desentendimentos entre Guedes e o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), em meio a discursos desencontrados com o presidente Jair Bolsonaro, adicionaram ruídos sobre o rumo da condução da economia brasileira. A cena só piorou no final da semana passada, com a troca de alfinetadas entre Guedes e o ministro de Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho.

Guedes participou do anúncio do Renda Cidadã, mas depois declarou ser contra o uso de precatórios, que seria uma forma indireta de furar o teto de gastos. Marinho teria dito a investidores que “da melhor ou pior forma” o programa social seria executado, criticado a postura de Guedes e cogitado um estouro de R$ 70 bilhões no Orçamento. Guedes rebateu, chamando Marinho de “despreparado, desleal e fura-teto”.

“Existe a preocupação com a saída dele, dado os desencontros com o presidente e a piora da interlocução com a Câmara. Mas isso não está precificado e seria mal-recebido”, diz o chefe de um banco de investimento.

A preocupação fiscal, no entanto, ficou clara nos ativos financeiros na última semana. O Ibovespa sofreu queda de 3,08% na semana passada e desceu para o nível dos 94 mil pontos, enquanto o dólar subiu 2%, para R$ 5,67. No mercado de juros futuros, a taxa do contrato de DI para janeiro de 2025 foi de 6,21% para 6,82% anuais.

Há críticas também sobre a inabilidade do ministro em amarrar as reformas prometidas. Porém, Guedes continua sendo considerado o fiel da balança. Uma eventual saída do ministro faria “o caldo entornar”, como define o presidente de instituição financeira. “Apesar das trapalhadas enormes, sendo a última se associar a esse anúncio desastroso [do programa social], não chegamos ao ponto de achar que é melhor sem ele. Guedes ainda representa a esperança contra a sede de populismo fiscal, que compromete, sem dúvida nenhuma, a dinâmica futura de crescimento”, disse o banqueiro.

Um outro presidente de banco afirma ser perceptível o “clima ruim” entre Guedes e outros ministros e o Legislativo, ao mesmo tempo em que Bolsonaro “parece apoiá-lo” em público. De acordo com esse interlocutor, o problema não é se Guedes sai ou fica, mas a sinalização do governo sobre o compromisso com o equilíbrio das contas públicas. “Se ele sai e entra o Roberto Campos Neto [presidente do BC], o mercado pode até subir. Se ele sai e entra um gastador, aí será uma tragédia”, diz.

Uma eventual troca de Guedes por Campos, entretanto, não é uma solução que agradaria a todos. Um executivo graduado de outra instituição diz ver no atual presidente do BC a defesa de uma “agenda própria”, pela postura que vem adotando em temas como “open banking” e pagamentos instantâneos. De acordo com essa fonte, Campos tem sido intransigente diante dos alertas das instituições financeiras de que seria mais prudente adotar o sistema de pagamento instantâneo Pix de forma faseada e adiar o início do open banking, previsto para novembro.

As grandes instituições financeiras não são muito ligadas a Guedes, embora apoiem a agenda liberal defendida por ele. O ministro, por sua vez, não esconde suas ressalvas aos bancos pelo poder de mercado que detêm. Em maio, chegou a dizer que “200 milhões de trouxas” são explorados por seis bancos em uma “live” com o presidente do Itaú Unibanco, Candido Bracher.

Outro executivo graduado de um grande banco afirma que “ninguém é insubstituível”, mas a saída de Guedes provocaria um soluço no mercado no curto prazo. “No longo, o perigo é [Bolsonaro] escolher errado”, diz. Para esse interlocutor, no caso da saída do ministro não haveria substitutos óbvios. Ele vê com ressalvas uma possível escolha de Campos. O presidente do BC, afirma, segue a cartilha de Guedes, mas pode ter exagerado no ritmo de corte da Selic, provocando pressão inflacionária.

Na visão de profissionais do mercado financeiro ouvidos pelo Valor, a forte alta dos juros de longo prazo, do dólar e a queda da bolsa na semana passada revelam, em grande medida, que o mercado já não confia em Guedes como um guardião das boas práticas fiscais. “Onde está aquele leão que assumiu o ministério no começo do governo?”, questiona uma fonte. “Esse ministro não existe mais, é como se ele tivesse saído.”

Fabricio Taschetto, sócio-fundador e executivo-chefe de investimentos da ACE Capital, diz que “está muito claro que o Guedes está mais fraco, muito mais fraco agora do que há dois meses, e o meio político é que vem predominando na discussão fiscal. Não me surpreenderia se tivéssemos mais notícias ruins pela frente na parte fiscal, que acabam impactando juros e câmbio”.

“A questão fiscal de fato preocupa e, na verdade, o mercado já embute bastante coisa negativa nos preços, um nível de incerteza bastante grande com uma taxa de juros para seis anos na casa de 7%. O problema é a impressão de que as coisas podem sair dos eixos. O mercado até vinha com certo otimismo em relação à recuperação até setembro, mas se o governo começar a se aventurar muito nesse flerte com ‘soluções mais criativas’ nas contas a gente vê que ainda tem espaço para piorar”, afirma Ulisses Nehmi, CEO da Sparta. (Colaborou Lucinda Pinto)


Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Maria Luíza Filgueiras, Talita Moreira e Sérgio Tauhata - São Paulo, 05/10/2020