A deterioração do risco fiscal e o aumento da volatilidade no exterior colocaram em xeque posições mais otimistas de grandes investidores na bolsa brasileira. Em uma postura mais defensiva do que em meses anteriores, fundos de investimento e outros agentes relevantes sacaram volumes expressivos de capital da B3 nas últimas semanas.

Considerando apenas o mercado secundário (ações já listadas), os investidores institucionais sacaram R$ 5,08 bilhões da bolsa em setembro. Foi a pior debandada mensal desde janeiro de 2018 quando retiraram R$ 5,22 bilhões do segmento. Logo, o resultado representa a maior saída líquida desses “players” no mercado secundário em todo o ano de 2020 e reduz o saldo positivo no período para R$ 28,55 bilhões.

O estrangeiro também manteve seus saques da bolsa brasileira, com R$ 2,39 bilhões retirados em setembro e R$ 87,75 bilhões em 2020. A pessoa física, por outro lado, ingressou com R$ 5,96 bilhões no mês passado e totaliza fluxo positivo de R$ 61,26 bilhões no ano.

“O cenário mudou muito pouco para o investidor estrangeiro [porque a visão já era negativa] e para o local a percepção de risco piorou, embora o ajuste no ‘valuation’ esteja atrativo e [os investidores] possam achar que vale a pena correr o risco”, explica Carlos Sequeira, chefe de pesquisa de ações para América Latina do BTG Pactual.

Segundo Sequeira, a questão fiscal já era uma preocupação grande do mercado desde o início da pandemia, mas foi intensificada nas últimas semanas. “Existe a demanda para gastos sociais e a classe política quer direcionar, o que acho genuíno pelo impacto da crise. O problema é a solução, foi isso que assustou, com tentativa [de financiamento do programa social Renda Cidadã] via outros formatos menos ortodoxos, sem corte de gastos”, explica.

De acordo com gestores ouvidos pelo Valor, o momento é de cautela e evitar riscos. Enquanto alguns profissionais venderam ações para encorpar o caixa, outros ressaltam que a ideia é sair do risco local e reforçar a posição em mercados desenvolvidos. Há ainda quem esteja bastante seletivo com qualquer oportunidade. Prevalecem, assim, estratégias mais defensivas para enfrentar o aumento da volatilidade e das incertezas com os rumos das contas públicas por aqui.

A Garde, por exemplo, decidiu reforçar o caixa para enfrentar esse momento de incerteza. De junho para cá, a exposição da carteira da gestora a ações locais saiu de 20% para cerca de 7%. Mais recentemente, a casa até aumentou a alocação para 10%, mas a iniciativa foi mais tática, para aproveitar oportunidades pontuais.

Para voltar a aumentar a exposição, serão necessárias mais definições no cenário local. “Ainda não vimos propostas alternativas para financiar o Renda Cidadã, como otimizar programas sociais ou corte de gastos”, explica Marcelo Giufrida, CEO da Garde. “Esse debate precisa voltar com mais força. Não é simples, não é fácil, mas é isso que pode animar o mercado.”

De olho no risco fiscal, a Kairós Capital reduziu a exposição a ativos locais de cerca de 50% no final de junho para zero durante todo o mês de agosto. E, mesmo voltando a adicionar alguma posição mais tática em setembro, a gestora ainda dá preferência a ativos de mercados desenvolvidos. “Não se trata de uma visão negativa sobre o mercado de ações, de preços muito elevados ou falta de potencial. É um problema de percepção de risco”, afirma o diretor de investimentos da Kairós, Fabiano Godoi.

Ele explica que a preferência por mercados desenvolvidos neste momento decorre do fato de que esses países têm mais capacidade de suportar o fardo fiscal para apoiar a recuperação da economia. “De forma geral, ativos de emergentes são mais vulneráveis a descontinuidade de preços do que mercados desenvolvidos”, diz.

A saída de recursos da bolsa em setembro foi importante mesmo considerando outros segmentos do mercado. Os investidores institucionais retiraram R$ 4,57 bilhões do mercado de ações como um todo (secundário, ofertas primárias e contratos futuros) em setembro, de acordo com dados consolidados pela GAP Asset. Para efeito de comparação, os piores meses do ano foram março e abril, quando os saques atingiram R$ 17,41 bilhões e R$ 7,10 bilhões, respectivamente.

Dessa forma, os resgates em setembro interrompem a tendência superavitária dos meses de julho e agosto, que tiveram ingressos de R$ 5,09 bilhões e R$ 6,80 bilhões. Ainda assim, o saldo no ano segue superavitário, em R$ 33,99 bilhões.

“Preferimos diminuir a posição logo e correr o risco de sermos surpreendidos positivamente, do que sofrer com uma posição e torcer para que tudo dê certo. A incerteza aumentou bastante”, afirma o gestor de renda variável da GAP Asset, Guilherme Motta, que segue otimista com a bolsa, mas reduziu a exposição dado o risco de enfrentar novos sustos no cenário. “Estamos no olho do furacão neste momento. Se não fosse pela confusão política, todo o mercado estaria em outro nível”, acrescenta.

Para o cogestor dos fundos de renda variável na AZ Quest, Eduardo Carlier, a bolsa brasileira reserva oportunidades de compra no nível atual de preços, mas o âmbito fiscal tem trazido estresse no curto prazo. “A perspectiva de médio e longo prazo é positiva com inflação e taxa de juros baixa. Se tirar todo o estresse da questão fiscal, há condições de trabalhar um cenário mais produtivo, mas no curtíssimo prazo tem volatilidade.”

No caso da Western Asset no Brasil, a estratégia tem sido de uma postura mais conservadora. “Mais conservadores quer dizer que não saímos fazendo nada abruptamente. A gestora olha e tenta trazer o máximo de notícia relevante e excluir o barulho, porque é isso que acaba aumentando a volatilidade nos ativos e distorcendo os preços”, conta César Mikail, gestor de renda variável.

Segundo ele, a saída tanto do investidor institucional como do estrangeiro da bolsa brasileira em setembro reflete a aversão ao risco generalizada em todo o mundo e específica do Brasil, que não mostra avanços significativos na agenda de reformas e controle fiscal.

“Além de lá fora ter tido correção, nós também tivemos nossos problemas. Enquanto o cenário não ficar claro, e acredito que não será amanhã, o mercado fica nervoso. A saída do investidor institucional é natural, porque querem baixar risco e vendem ações”, diz.


Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Lucas Hirata e Marcelle Gutierrez -São Paulo, 05/10/2020