O Brasil ganhou mais um título ruim, o de ter a “pior” moeda global. Mesmo diante do recuo global do dólar nos últimos três meses, a moeda americana continuou a se valorizar ante o real - 40,11% no ano até setembro. A conta do real ante o dólar, mostra uma maxidesvalorização de 29,8%. Recentemente, o dólar voltou a deslizar em direção aos R$ 6, como em maio, quando quase chegou lá (R$ 5,90). O aprofundamento da fragilidade fiscal, já elevada antes da pandemia, é o fator de fundo para o enfraquecimento do real. Ela se exprime na saída de capitais aplicados em portfólio, com intensidade especial nas aplicações em ações.
Os problemas domésticos tem a primazia, como mostra o comportamento dos índices de risco, como o CDS de cinco anos (que subiu 16% no mês, para 255 pontos) e o aumento dos juros ao longo da curva de longo prazo, pondo em xeque a orientação de juros baixos por um período prolongado dada pelo BC.
Mas a instabilidade externa tem peso importante na trajetória declinante do real. O deslocamento da moeda brasileira vem em um crescendo desde 2019, outro ano em que ela esteve muito pressionada. Até agosto de 2020, saíram pelo câmbio financeiro US$ 47,6 bilhões, um montante ligeiramente inferior aos US$ 48,8 bilhões que bateram em retirada do país na crise de 2008. Mas em 2019, foi pior - US$ 62,2 bilhões. A aversão ao risco que levou os investidores ao dólar até o Federal Reserve anunciar, perto do fim do ano, que interromperia a alta dos juros fez os investidores reavaliarem aplicações no Brasil mesmo após a reforma da Previdência.
A pandemia derrubou as bolsas mundiais, nova onda de aversão ao risco derrubou o real, e o pico do dólar foi atingido em 13 de maio. A partir daí, porém, não só os recursos que saíram não voltaram como os ingressos de capital se reduziram, caso do investimento direto no país. Em 2019, ele somou US$ 73,5 bilhões e em 2020, segundo previsões, encostará em US$ 50 bilhões. O saldo líquido de saída das aplicações em ações na B3 até setembro foi negativo em R$ 72 bilhões, já incluídas as movimentações de estrangeiros nos IPOs do ano (Valor Online).
O estimulante do apetite por risco, os juros altos brasileiros, deixou de existir em 2020. A 2%, a taxa Selic aponta rendimentos que perdem para a inflação. As bolsas americanas se mostraram um refúgio mais rentável, mais seguro e com menos volatilidade que a brasileira. As chances de retorno da economia americana a seu ritmo normal, e das empresas aos lucros, são bem maiores que as do Brasil, que tem claramente um problema de crescimento, expresso muito antes de qualquer pandemia, em uma expansão raquítica de 1% nos últimos três anos.
Sem a atração dos juros e com perspectiva de crescimento problemática, sobraram dívidas crescentes e um enorme problema fiscal. “O Brasil tem a curva de rendimentos mais inclinada da América Latina, maior relação dívida em relação ao PIB e é o país emergente que mais gastou dinheiro do contribuinte para enfrentar a pandemia”, avalia a consultoria Oxford Economics.
Com a dívida bruta em 88,8% do PIB e um ponto de interrogação sobre sua capacidade de crescer sustentadamente, o Brasil atrai mais os capitais especulativos, desde que pague de acordo. Como a dívida brasileira é basicamente em reais, os investidores domésticos agem da mesma forma. O Tesouro encurtou o prazo dos débitos nos leilões para não sancionar uma alta do custo, que espera ser temporária.
Para ser temporária, porém, é necessário que o governo indique um rumo claro, tente com determinação fazer as reformas que prometeu e demonstre unidade de propósitos. O episódio dos Rendas (Brasil, depois Cidadã), entre outros, reforçou evidências de que o presidente tem pouco apreço pelas reformas, o ministro da Economia as defende mas perde cada vez mais a capacidade de influenciar Bolsonaro, enquanto crescem as vozes dentro do governo, e de seus aliados fisiológicos a favor da derrubada do teto de gastos, sem terem a menor ideia do que colocar no lugar.
O teto de gastos é uma das maneiras de se controlar o déficit público. Se ele não se tornou sustentável, é possível achar outras ferramentas que cumpram o mesmo objetivo - conter despesas, tornar declinante a curva dos déficits e da relação dívida/PIB. O presidente está de olho na reeleição e boa parte de seus conselheiros só pensa em ampliar despesas. Nesta situação, o BC está certo em economizar reservas, pois vendê-las seria um desperdício. Mesmo que a desvalorização do real não vá muito mais longe, é preciso colocar ordem na casa ou os juros não ficarão aonde estão.
Fonte: Valor Econômico - Opinião, 02/10/2020

