A dívida pública voltou a avançar de maneira expressiva em agosto, em contraste com os gastos com juros, que continuam a cair. No mês passado, a dívida bruta subiu 2,4 pontos percentuais do Produto Interno Bruto (PIB), para 88,8%, ou R$ 6,38 trilhões. Com isso, o indicador atingiu pelo quinto mês seguido novo recorde da série histórica. Os números foram divulgados ontem pelo Banco Central (BC).

Já a dívida líquida ficou em 60,7% do PIB, o maior patamar desde setembro de 2002. Em sentido oposto, os gastos com juros atingiram 4,48% do PIB. Foi a primeira vez desde agosto de 2014 que essas despesas ficaram abaixo de 4,5% do PIB.

O chefe do departamento de estatísticas da autoridade monetária, Fernando Rocha, afirmou que a alta do endividamento em agosto era esperada. “Houve um crescimento muito grande de despesas, especificamente ligadas à pandemia”, disse ele, citando gastos como o auxílio emergencial e outros ligados à saúde e a programas de sustentação de emprego.

Assim, o déficit primário atingiu R$ 87,6 bilhões em agosto - alta de R$ 71 bilhões em relação ao mesmo período do ano passado. No acumulado de 12 meses, por sua vez, passou de R$ 95,5 bilhões (1,34% do PIB) para R$ 611,2 bilhões (8,50% do PIB). Apesar do aumento do estoque da dívida, a queda da Selic vem empurrando para baixo nos últimos anos as despesas com juros. Atualmente em 2% ao ano, a taxa básica tem testado mínimas históricas desde o fim de 2017, quando estava em 7%.

No mês passado, o custo de carregamento da dívida líquida ficou pela primeira vez em toda a série histórica do BC abaixo de 9% ao ano, alcançando 8,4%. A taxa implícita capta uma média dos juros incidentes sobre os ativos e passivos da dívida líquida. Isso porque, além da Selic, a dívida mobiliária tem outros indexadores, como índices de preços.

Ainda assim, a dinâmica do endividamento público continua como uma “fonte de preocupação”, de acordo com Alberto Ramos, diretor do departamento de pesquisa para a América Latina do Goldman Sachs.

“O elevado e crescente nível da dívida pública (estoque) e o alto déficit (fluxo) deixam o quadro fiscal e a economia de uma forma geral vulneráveis a choques adversos domésticos e externos, como os desdobramentos da pandemia”, afirma. O economista calcula que a dívida bruta atingirá 95% do PIB em 2020.

“Portanto, enfrentar a dinâmica insustentável do endividamento público e construir colchões fiscais continuarão, inquestionavelmente, sendo o principal desafio macroeconômico para os poderes Executivo e Legislativo assim que a pandemia for controlada.”

 

Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Estevão Taiar e Alex Ribeiro - São Paulo e de Brasília, 01/10/2020