
O desempenho do mercado de trabalho formal brasileiro voltou a surpreender positivamente em agosto - o setor de serviços, inclusive, registrou a primeira criação de vagas na pandemia -, uma tendência que deve continuar nos próximos meses, na avaliação do governo. Economistas têm dúvidas, porém, sobre a sustentação desse ritmo, à medida que programas federais chegarem ao fim.
O país abriu 249.388 vagas com carteira em agosto, segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) divulgados ontem pelo Ministério da Economia. O resultado veio acima da mediana do Valor Data, de 150 mil postos, e foi o melhor para agosto desde 2010, quando foram criadas 299.415 vagas.
O saldo do mês passado é fruto de 1.239.478 contratações, alta de 10% ante julho, sem ajuste, contra 990.090 demissões, que avançaram 1%. As demissões estão em patamar historicamente baixo, especialistas têm destacado. O secretário especial de Previdência e Trabalho, Bruno Bianco, disse à imprensa que o mês de agosto “coroa” a perspectiva de retomada da economia. “Alguns setores ainda sofrem, mas todos tiveram melhora.”
Para Cosmo Donato, da LCA Consultores, o resultado pode ter mais relação com fatores conjunturais. De um lado, o Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda (BEm), que permitiu a suspensão de contratos e redução de salários/jornadas, pode contribuir para demissões atipicamente baixas, ele diz, sem descartar a chance de alguma subnotificação. De outro, as admissões, que caíram bruscamente com a restrição social, vão se recompondo em linha com a flexibilização, que é relativamente rápida.
“Se você considerar que tem o período de estabilidade dos funcionários com contratos revistos e as empresas puderam voltar a contratar, o saldo expressivo não é fenômeno tão relacionado à retomada da economia, mas à conjuntura da pandemia e às medidas tomadas. Não digo que vamos embarcar em um período de saldo negativo, mas podemos estar vendo algo pontual, de admissões retomando quando empresas não podem desligar”, diz o economista.
A recuperação do emprego formal, para ele, é parcial e mesmo resultados setoriais devem ser relativizados. Em agosto, o saldo foi positivo para indústria (92.893), construção (50.489), comércio (49.408) agricultura (11.213) e, pela primeira vez desde fevereiro, serviços (45.412). “Não é surpreendente que os setores retornem, estão recompondo parcialmente as quedas bruscas”, afirma Donato.
De março a junho, foi fechado quase 1,6 milhão de postos. Em julho e agosto, criaram-se 390,6 mil vagas, restando cerca de 1,2 milhão de empregos a serem recuperados. “O buraco foi fundo. Não acredito que esse salto de 250 mil postos, patamar necessário nos próximos meses para gerar 1 milhão de vagas, se sustente por muito tempo até o fim do ano”, diz o economista da LCA. A partir de meados de setembro, é possível que a estabilidade nas primeiras empresas que aderiram ao BEm e que não prorrogaram esses contratos se encerre e comece um movimento lento de aumento das demissões, observa Donato.
O secretário de Trabalho, Bruno Dalcolmo, disse não ver essa possibilidade. Para ele, há “clara tendência de geração de empregos”. Bianco e o ministro Paulo Guedes (Economia) sinalizaram ainda que o BEm deve ser prorrogado por dois meses. “Pode ser que continue a tendência amenizada de desligamentos, mas o risco permanece”, diz Lisandra Barbero, economista da XP. “A questão é o que vai acontecer quando o BEm e os incentivos começarem a ser retirados.”
Em relatório, a MCM Consultores alertou que os resultados “excelentes” do Caged precisam ser analisados com cuidado, pois podem ocultar “uma realidade menos alvissareira”. Pela dessazonalização da consultoria, as admissões avançaram 13,9% em agosto, ante julho, e as demissões subiram 14%, mas sobre uma base baixa. Os números contrastam com os da Pnad Contínua (leia texto Desemprego vai a 13,8% e é o maior em pelo menos 25 anos), que mostram queda da ocupação formal muito superior, mas “tendem a piorar com o término das carências impostas pelo programa - o que talvez esteja começando a acontecer, sugere o avanço, ainda modesto, dos desligamentos no mês”, diz a MCM.
Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Anais Fernandes e Mariana Ribeiro - São Paulo e de Brasília, 01/10/2020

