A escalada do dólar potencializou a valorização de commodities e encareceu insumos industriais, uma pressão generalizada que levou o Índice Geral de Preços - Mercado (IGP-M) a mostrar recordes de alta em setembro. Divulgado ontem pela Fundação Getulio Vargas (FGV), o IGP-M acelerou de 2,74% em agosto para 4,34% neste mês - maior taxa mensal desde novembro de 2002, quando o índice subiu 5,19%.

Nos 12 meses terminados em setembro, o indicador avançou 17,94%. Também nessa medida, o aumento é elevado em termos históricos: a maior taxa registrada antes da leitura atual ocorreu em igual mês de 2003 (21,42%). Para André Braz, coordenador dos índices de preços da FGV, mesmo em patamar pressionado, é possível que a medição de setembro ainda não seja o pico dos IGPs em 2020.

“Houve desvalorização cambial adicional, orientada pela questão fiscal. Se isso for mantido, pode gerar novas pressões inflacionárias dentro do IPA [Índice de Preços ao Produtor Amplo]”, disse Braz. Com peso de 60% no IGP-M, o IPA subiu 5,92% em setembro, ante 3,74% um mês antes. No acumulado em 12 meses, a inflação no atacado atingiu 25,26%. Nessa comparação, o economista destaca o salto de 54,09% das matérias-primas brutas, que aumentaram 10,23% somente neste mês.

Para ele, boa parte da aceleração está relacionada à trajetória do câmbio, que teve desvalorização de mais de 30% em um ano. Em setembro de 2019, observou Braz, a taxa de câmbio média era de R$ 4,10. Em igual mês deste ano, está em R$ 5,39. “Os IGPs são muito sensíveis à questão cambial. E o real mais desvalorizado atrai mais compradores para os insumos brasileiros, o que diminui a oferta no mercado doméstico e acaba pressionando mais os preços”, explicou.

Como exemplo de preços afetados por essa dinâmica, o coordenador citou itens como soja, milho, carnes e, fora dos alimentos, minério de ferro. Em setembro, o minério foi o maior impacto de alta no IPA, ao aumentar 10,8%. Já soja e milho foram a segunda e terceira principais pressões, com avanço de 14,32% e 14,89%, respectivamente, seguidos de bovinos (7,38%).

“No atacado, todos os estágios de processamento registraram aceleração, e boa parte disso vem de alimentos”, observou Braz. Refletindo as matérias-primas mais caras, os alimentos processados avançaram de 2,98% para 5,99% na passagem mensal. Além dos alimentos, o economista apontou influência do dólar mais alto nos preços de derivados do minério, que são insumos na indústria de bens duráveis e na construção.

No varejo, porém, o repasse cambial deve ficar mais concentrado nos alimentos, como já vem ocorrendo, avalia Braz. Responsável por 30% do IGP-M, o Índice de Preços ao Consumidor - M (IPC-M) aumentou 0,64% neste mês, vindo de 0,48% na medição anterior, com taxas maiores em educação (-0,62% para 1,73%), alimentação (0,61% para 1,30%) e transportes (0,87% para 1,07%).

Nos 12 meses até setembro, os alimentos aumentaram 9,1% no IPC. “Todos esses repasses acabam se materializando de forma mais forte na parte de alimentos”, comentou Braz, tendência que deve continuar nos próximos meses, elevando os IPCs.

 

Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Arícia Martins - São Paulo, 30/09/2020