As edificações sustentáveis representam apenas 8,3% do PIB da construção civil brasileira ou cerca de R$ 13 bilhões, segundo estudo da consultoria EY, divulgado em 2013. A meta do governo federal, de instituições financeiras e de entidades de classe, como Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), é que esse volume ganhe peso nos próximos anos, com a ajuda de novas políticas públicas e de opções de financiamento dedicadas à compra de sistemas de captação de energia limpa.
Já há ações nessa direção, como o desenvolvimento de linhas de crédito especiais, pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), para projetos brasileiros de eficiência energética em shopping centers ou hotéis, e a instalação de aquecedores de água, que usam energia solar, em unidades do programa federal Minha Casa Minha Vida.
"O desafio do setor de construção, nos próximos anos, será o de erguer mais empreendimentos que demandem um menor consumo de água e energia", diz Nilson Sarti, presidente da comissão de meio ambiente da CBIC, durante painel do 87º Encontro Nacional da Indústria da Construção (ENIC 2015), realizado na semana passada, na capital baiana. Segundo Álvaro Silveira, consultor do BID, uma das principais barreiras do setor privado para o investimento em soluções de energia limpa é o alto custo que as obras de viés sustentável ainda demandam. Para driblar essa trava, a instituição tem facilitado empréstimos corporativos diretos de US$ 500 mil a US$ 5 milhões. "Entramos com 50% do investimento em projetos avaliados entre US$ 500 mil e US$ 10 milhões", diz.
Um empréstimo de US$ 5 milhões do BID vai ajudar o grupo Corinsa, de Honduras, a instalar painéis fotovoltaicos nos telhados de suas fábricas de refrigerantes no país. As unidades poderão produzir três megawatts (MW) de eletricidade para consumo próprio, em um projeto que já é considerado a maior instalação fotovoltaica da indústria, no topo de construções, da América Latina.
O BID também formatou uma linha especial para o Brasil, chamada de Mecanismo de Garantia de Eficiência Energética (EEGM), que prevê até US$ 25 milhões para a emissão de garantias de crédito para projetos do segmento. Oferece uma cobertura máxima de até 80% do valor do contrato, limitado a US$ 1,6 milhão. Pode ser usado para projetos em shopping centers, plantas
industriais ou hotéis, e cobre o uso de sistemas de arcondicionado ou captação de energia solar.
Jorge Jobim, diretor do departamento de desenvolvimento energético do Ministério de Minas e Energia (MME), diz que o Brasil pode abraçar mais iniciativas de produção de energia limpa graças à sua capacidade geradora. Para se ter uma ideia, a região Norte lidera o ranking de potencial solar, com 43,3% do total, seguido do Nordeste (20,5%), CentroOeste (19,3%), Sudeste (10,5%) e Sul (6,4%). Segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), o Brasil tem 317 usinas fotovoltaicas em operação, com quase 20 MW de potência instalada.
Para se ter uma ideia, somente a Califórnia (EUA), com nove geradoras, apresenta capacidade de 354 MW. Uma usina solar de 100 MW gera energia para 20 mil casas e evita a emissão de 175 toneladas de gás carbônico ao ano. Guilherme Syrkis, vicepresidente da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar), diz que em todos os lugares do mundo em que a geração de energia solar em residências é mais difundida há, também, mais opções de financiamento para os moradores. "O custo médio da instalação de placas solares no Brasil é de R$ 21 mil a R$ 36 mil", diz o executivo, que dirige uma prestadora de serviços na área. Mesmo com o preço salgado, ele afirma que o prazo de retorno do investimento caiu nos últimos anos. Passou de 12 anos, em 2013, para 6,5 anos, em 2015. De acordo com a Absolar, o Brasil tem 960 sistemas de energia solar fotovoltaica e 90% do total estão em residências e pontos comerciais.
A previsão é chegar a um milhão de sistemas até 2024, o que pode representar R$ 25 bilhões em investimentos. "Esse aumento deve acontecer por conta da criação de fábricas de painéis no país e de um maior número de leilões de energia". Na primeira fase do programa Minha Casa Minha Vida foram instalados 41,4 mil sistemas de aquecimento de água via energia solar. "A segunda etapa do projeto contratou 254 mil unidades para os moradores", diz Amanda Olalquiaga, representante do Ministério das Cidades. O uso da tecnologia virou uma determinação obrigatória no programa federal desde 2012, com o objetivo de reduzir em até 30% as contas de energia elétrica dos consumidores.
Fonte: Valor - Empresas, por Jacilio Saraiva, 30/09/2015

