Estudo recente da lataforma de acompanhamento de dados climáticos CDP Latin America mostra que, só 9% de grandes companhias latinas monitoram as emissões de gases de efeito estufa (GEE) da sua cadeia de suprimentos e somente 8% exigem em contrato metas relacionadas ao clima. No recorte nacional, são 9% as empresas brasileiras que fazem o acompanhamento com a cadeia e 7% as que têm obrigação contratual.

O papel das companhias para o engajamento da cadeia no tema é, portanto, central, segundo especialistas. Mas, definitivamente, não é algo simples, rápido e nem barato. Carla Leal, diretora de Digital da WayCarbon, consultoria especializada em soluções para descarbonização, explica que a complexidade começa na hora de definir o que considerar no chamado “Escopo 3” do GHG Protocol, principal entidade normativa para o cálculo das emissões de gases de efeito estufa.

A cadeia de valor considera 15 categorias, que vão desde a poluição com transporte, deslocamento de funcionários, viagens a negócios, resíduos gerados na operação, até processamento de produtos vendidos, do uso dos produtos por clientes, o tratamento dos itens no fim de sua vida útil, das atividades de franqueados e ativos alugados e investidos.

 

“É muito frequente que as empresas façam o cálculo das emissões das categorias mais simples de serem mensuradas, como por exemplo, transporte, distribuição e deslocamento de funcionários”, diz Leal. Isso porque são dados mais fáceis de se obter, a partir, por exemplo, de controle de viagens já existentes na empresa ou medição de distâncias entre o endereço dos funcionários e seu local de trabalho. São as outras categorias as que desafiam.

Para entender o ciclo de vida de seus produtos e conseguir aferir quanto eles emitem até chegar às prateleiras, por exemplo, a empresa precisa identificar todos os produtos comprados e seus respectivos fornecedores para, então, fazer sua pegada de carbono. “No entanto, muitas vezes essa informação não existe, então recorre-se a um banco de dados de fatores de emissão para um cálculo aproximado”, conta a especialista. Coletá-la do inventário de emissões de GEE desse fornecedor é uma alternativa, mas, não é ainda uma realidade para a maioria.

“Dependendo do setor em que a empresa atua, calcular as emissões do uso de produto é a principal dificuldade”, pontua Leal. É o caso, por exemplo, da indústria de linha branca ou das montadoras. “É necessário calcular as emissões de todas as geladeiras vendidas em todos os anos passados e ainda em uso (ou seja, pelo tempo de vida dessas geladeiras), considerando-se as especificidades de maior consumo de energia ou gás refrigerante de cada modelo”, cita. A redução das emissões, nesse caso, somente é possível com a substituição da geladeira por um modelo com menor emissão de GEE.

No varejo, as emissões de transportes costumam ser relevantes e a complexidade cresce com a contratação de empresas de transporte terceirizadas. “Como a variação de distâncias percorridas e frotas que variam em tamanho (de carretas a motos para entrega de last mile) e em idade, são volumes de dados impossíveis de serem trabalhados em uma planilha de excel“, comenta Leal.

No varejo de alimentos, que geralmente disponibiliza milhares de itens diferentes em suas lojas, de pés de alface a pneus, advindos de centenas de fornecedores distintos, o processo pode ser ainda mais complexo. “É necessário um grande esforço de entender, frente ao volume de vendas e volume de emissões de GEE de cada produto, o que é efetivamente relevante. Ou optar por começar pelas grandes empresas globais fornecedoras de alimentos, que já possuem suas emissões calculadas.”

Há também o caso do setor financeiro, que financia atividades que poluem. De maneira simplificada, cada banco tem que calcular as emissões de cada um de seus clientes para os quais empresta dinheiro, proporcionalmente ao valor financiado. Para apoiar as instituições financeiras, foi criada uma metodologia chamada PCAF.

Esse processo de identificação de quais são as categorias mais relevantes para o negócio, segundo a especialista, é conhecido como screening de escopo 3. A Science Based Targets Initiative (SBTi), iniciativa que estimula a perseguição de metas climáticas baseadas na ciência, estabelece que, quando as emissões de escopo 3 superam 40% das emissões totais de uma empresa, sua meta de redução deve contemplar esses segmentos.

 

Engajamento da cadeia

O envolvimento dos fornecedores no processo de inventário tende a ser feito por etapas, com, primeiramente, a identificação dos principais fornecedores da companhia e, depois, a elaboração de um plano de engajamento, que, idealmente, deve durar alguns anos.

“Nesse plano, em geral existem incentivos, que podem variar do apoio da empresa na elaboração do inventário até prêmios ou redução de prazos de pagamentos para os fornecedores mais engajados”, explica Leal. Ela cita o exemplo da Nestlé com a descarbonização da cadeia do leite como exemplo.

Em parceria com a WayCarbon e a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), a empresa lançou no ano passado um projeto piloto de mensuração e diminuição de emissões em oito fazendas. O objetivo é alcançar emissões zero de carbono até 2025, o que é um desafio para a companhia, dado que cerca de 30% das emissões de CO2 pela empresa no Brasil, em 2018, vinham da cadeia de produção do leite.

No cálculo das fazendas, foi considerada as emissões do "do berço à porteira", de insumos, eletricidade e combustíveis usados pela fazenda, até a produção leiteira propriamente dita. Hoje, quem separa e faz compostagem dejetos sólidos, captura metano produzido pelo gado na digestão, diminui uso de fertilizantes químicos, entre outras ações, para citar algumas, têm, inclusive, premiação financeira. O prêmio vai do ouro ao bronze conforme os resultados e envolvimento dos produtores.

A cervejaria Heineken é outra que está buscando a ajuda dos parceiros para chegar a suas metas de redução de emissões. Cerca de 95,5% das emissões de carbono da companhia estavam, em 2021, na cadeia de valor (escopo 3), sendo os parceiros que fornecem matérias-primas e embalagens responsáveis, sozinhos, por 60%.

Segundo a diretora de Sustentabilidade do grupo Heineken no Brasil Ornella Guzzo Vilardo, uma vantagem é que por boa parte da cadeia é de empresas grandes e algumas globais, que já têm também compromissos públicos e submeteram metas de redução de emissões ao SBTi. Inclusive, diz, ter compromissos e metas baseadas na ciência são pré-requisitos para as companhias que queiram participar de seu programa global de rastreabilidade e engajamento da cadeia, o Brewing a Better Future, lançado em 2021.

“Não quisemos, por ora, premiar nem punir. Nossa abordagem é de colaboração e compartilhamento de conhecimento”, explica Vilardo. Ela detalha que foi construído com os participantes do programa um mapa de descarbonização e uma agenda de troca de aprendizados e acompanhamento. A empresa tem o desafio de reduzir em 30% das emissões em toda cadeia de valor até 2030 e net zero, inclusive de escopo 3, até 2040.

Com bares e restaurantes - seus clientes -, o grupo já oferece desde o ano passado acesso a fonte de energia renovável sem custo extra, no âmbito do programa Energia Verde, e está ampliando um projeto de vidros retornáveis.

Ganha-ganha

Para que a estratégia de engajamento seja bem-sucedida, diz Carla Leal, da WayCarbon, é preciso que seja um ganha-ganha para ambos, comprador e fornecedor. “Na prática o engajamento varia por inúmeras razões, mas principalmente em função do setor e de sua cadeia de suprimentos”, comenta Carla Leal, da WayCarbon.

Ela cita que, na indústria da construção civil, por exemplo, as maiores emissões de escopo 3 estão relacionadas à compra de cimento, concreto e aço e, em geral, contemplam menos fornecedores e são recorrentes. “Nesses casos, há um ganho no cálculo das emissões tanto para a empresa de construção quanto para o fornecedor na redução de emissões de GEE na medida em que pode propiciar inovações tecnológicas e, portanto, o engajamento pode ser mais fácil comparativamente a outros setores”, aponta.


Fonte: Valor Econômico - ESG, por Naiara Bertão, Prática ESG — São Paulo, 29/09/2023