O mercado iniciou a semana sob forte tensão. A proposta do governo para o financiamento do novo programa social Renda Cidadã adicionou incertezas ao já nebuloso cenário fiscal. Como resultado, o dólar subiu 1,4%, a R$ 5,6358, no maior nível desde 20 de maio, o que levou o Banco Central (BC) a intervir por meio de um leilão extraordinário, no qual vendeu US$ 877 milhões. O Ibovespa teve perdas de 2,4%, a 94.666 pontos, menor patamar desde 10 de junho. Os juros futuros dispararam.
Em meio ao cenário de forte nervosismo que marcava os pregões na tarde de ontem, o líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR), em um gesto pouco usual, convocou representantes do mercado - como gestores e economistas-chefes - para dar explicações sobre o Renda Cidadão e tentar acalmar os ânimos, o que se mostrou infrutífero.
A proposta do governo, para acomodar dentro do teto de gastos para 2021 o Renda Cidadã, é remanejar recursos de duas rubricas: do Fundeb e das reservas feitas para pagamento de precatórios.
Segundo relatos de participantes desse encontro, Barros apenas reconheceu na conversa virtual que uma parte do novo programa vai ser financiada pelo Fundeb - portanto, fora do limite do teto de gastos. Sobre a questão dos precatórios, Barros comentou que isso já é utilizado pelos Estados e, assim, eles não veem problema em que a União o faça, afirmou outro interlocutor. “Ele não entendeu a gravidade da pedalada com os precatórios”, disse um dos participantes do encontro.
“Começa a voltar a dúvida para o mercado sobre se o governo está querendo usar alguma contabilidade criativa ou pedalada para abrir espaço no teto de gastos e implementar o programa de renda”, afirma Bernardo Zerbini, sócio e gestor responsável pela estratégia macro da AZ Quest. “Namorar uma questão fiscal grave [como flexibilizar o teto de gastos] sem querer endereçar da maneira correta isso vai manter um nível de incertezas bem alto e com consequência sobre preços nos ativos.”
Thiago Pereira, economista-chefe da Macro Capital, enfatiza que “é muito malabarismo para justificar uma ação. O mercado gostaria de ver propostas permanentes do lado da despesa”.
No mercado de juros futuros da B3, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2022 passou de 2,85% no ajuste anterior para 3,01%, enquanto a taxa para janeiro de 2025 saltou de 6,22% para 6,56%, e a do DI para janeiro de 2027 escalou de 7,21% para 7,56%.
O maior volume financeiro movimentado ontem na bolsa de valores ilustra a tensão no pregão. Foram girados R$ 22,07 bilhões, contra uma média diária de R$ 19,6 bilhões em setembro.
“Entrou em uma discussão mais perigosa e qualquer vacilada pode mexer na LRF [Lei de Responsabilidade Fiscal]”, diz Jorge Oliveira, sócio e gestor de renda variável da BlueLine Asset, que explica que o risco fiscal e consequente alta dos juros futuros afeta o “valuation” das empresas listadas, já que é o juros longo o utilizado para cálculo da taxa de desconto ao trazer o fluxo de caixa a valor presente.
Já o chefe de investimentos da ACE Capital, Fabricio Taschetto, vai mais além e considera que os sinais deixados pela proposta do Renda Cidadã com uso de recursos de precatórios e do Fundeb “são na direção de que não vai ter mais reforma nenhuma no Brasil”. Segundo ele, o que o governo apresentou e deu a entender é bastante ruim. “Não sei se essa dinâmica vai continuar, mas acho que fica um grande ponto de atenção e a indicação de que o Bolsonaro só quer fazer reformas desde que não corte beneficio de ninguém, algo que não existe.”
Para o gestor, o governo sinaliza que não terá disposição para comprar batalhas mais difíceis. “Acho muito difícil, a menos que, por alguma razão, o governo se convença de que precisa fazer algo”, diz.
Para o economista Gustavo Bertotti, da Messem Investimentos, o anúncio foi um “balde de água fria” no mercado, que esperava cortes de gastos e sinalizações sobre a reforma tributária, que não vieram, ou novas fontes de receita. “Isso não resolve o problema. Foi apenas um remanejamento, além da questão dos precatórios abrir um precedente jurídico”. “Não era o que o mercado esperava e foi uma solução que o Brasil já adotou algumas vezes. É complicado”, afirma.
Pela manhã, o Ibovespa chegou a bater a máxima de 98.314 pontos (em alta de 1,36%), em linha com o exterior e sustentado pelas ações do setor bancário. Logo após o anúncio pelo governo do programa, entretanto, o índice virou rapidamente para o negativo.
Até as ações do setor bancário, que registravam forte valorização após um relatório do Bank of America favorável ao setor e a divulgação da nota de crédito pelo Banco Central, não sustentaram o movimento. A ação do Santander foi a que teve melhor desempenho, com alta de 2,10% - mas tinha chegado a subir 6%. Banco do Brasil ON subiu 0,69%, enquanto Bradesco ON recuou 0,92% e Itaú Unibanco (-0,04%). (Colaborou Lucinda Pinto)
Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Marcelle Gutierrez, Marcelo Osakabe, Sérgio Tauhata e Victor Rezende - São Paulo, 29/09/2020

