O e-book XP de Qualquer Lugar, enviado pela companhia aos mais de 2,5 mil colaboradores em junho, no pico da pandemia, revelando a intenção de mudar sua sede para a cidade de São Roque, no interior de São Paulo, acendeu um sinal de alerta para o mercado imobiliário. Qual o futuro das grandes lajes corporativas nas áreas mais nobres da cidade com o avanço do trabalho remoto? Ninguém sabe, tudo dependerá do nível de recuperação da economia nos próximos dois anos e a flexibilização das jornadas de trabalho.

O mercado, porém, já sente os reflexos do novo modelo de trabalho antecipado pela crise. Segundo o relatório Mercado de Escritórios de Alto Padrão, realizado pela JLL, consultoria imobiliária especializada em imóveis corporativos, no primeiro trimestre de 2020 havia uma vacância na cidade de 19,3% e áreas para locação de 13,6%. Percentuais muito parecidos da da plataforma Siila, plataforma de dados do mercado imobiliário, apontou índices de vacância de 15,4% no segundo trimestre para os empreendimentos corporativos de alto padrão em São Paulo e de 32% no Rio de Janeiro.

“Com a postergação das locações que estavam para acontecer e a pressão do aumento das devoluções de escritórios, podemos dizer que a vacância na cidade tende a aumentar”, diz Mônica Lee, diretora da área de transações da JLL. “Estima-se que a vacância possa chegar a 19% e a disponibilidade a 20,9%”. Ela observa que o enxugamento de parte dos escritórios começará a ser mais visível no início de 2021, porque os contratos de aluguel são fechados a longo prazo e é preciso respeitar o aviso prévio médio de seis meses.

A realidade observada no eixo Rio-São Paulo é diferente do resto do país. “Outros mercados importantes como Porto Alegre e Belo Horizonte não tiveram lançamentos corporativos fortes nos últimos anos, o que ajudará a manter a demanda e o volume de áreas ocupadas”, diz Matheus Fabrício, diretor da Lopes Imobiliária, com mais de 90 unidades espalhadas por 40 cidades, em 10 Estados.

Na prática, as empresas estão reavaliando suas necessidades, se daqui para frente precisarão dos mesmos metros quadrados do passado. É o caso da Crowe Macro Auditoria e Consultoria, com 300 colaboradores, que trocou dois andares na Avenida Paulista, de 1,5 mil metros quadrados, por uma área menor no centro de São Paulo. “Com a adoção do home office para boa parte da equipe e flexibilização das jornadas, o escritório passou a ser uma base para receber os clientes, para treinamento e não uma estrutura para os funcionários trabalharem no dia a dia”, diz Marcelo Lico, fundador e CEO. “Com a mudança economizaremos R$ 1,2 milhão por ano.”

Segundo André Freitas, diretor de gestão da Hedge Investments, que administra R$ 6 bilhões em fundos imobiliários, os escritórios passarão por um redesenho, com mais distanciamento. A tendência é que as estações de trabalho que ocupam cerca de 7 metros quadrados no Brasil, se aproximem do espaço habitual praticado pelos escritórios americanos e europeus, entre 13 e 16 metros quadrados “Assistiremos a uma separação de back office do front office, colocando-se parte da equipe em áreas menos nobres, com custos menores. Em muitos casos, haverá uma migração dos grandes escritórios para os escritórios butique.”

Para Caio Castro, sócio da RBR Asset, gestora de fundos imobiliários, a vacância aumentará em lugares onde os índices já não vinham bem nos últimos anos. “As zonas comerciais mais antigas, como o centro de São Paulo, e bairros da zona sul mais afastados, sofrerão mais, com taxas de vacância superiores a 25% após a pandemia.

Nos bairros mais nobres, em áreas como as avenidas Faria Lima, Juscelino Kubitschek e Vila Olímpia, os índices de vacância estão abaixo de 8%, segundo levantamento da Siila e XP Investimento. “As localizações mais nobres da capital paulista serão as que menos sentirão os efeitos da crise provocada pelo coronavírus”, afirma Renan Manda, analista de fundos imobiliários. “Ainda há muitas empresas interessadas em alugar endereços nessas regiões”.


Fonte: Valor Econômico - Suplementos, por Katia Simões - Para o Valor, de São Paulo, 28/09/2020