O governo deve apresentar hoje, depois de uma reunião do presidente Jair Bolsonaro com ministros e líderes da base aliada no Palácio da Alvorada, o novo programa social batizado de Renda Cidadã e mais propostas na área tributária. A declaração conjunta deve incluir a desoneração da folha de pagamento das empresas.
A criação de novo imposto sobre transações, nos moldes da CPMF, também deve ser debatida durante o encontro. No entanto, seu anúncio depende de um acordo com a base.
O governo tem argumentado que ele não aumentará a carga tributária, mas seria uma forma de compensar a desoneração da folha. Autoridades do Executivo também afirmam que o teto de gastos será respeitado.
No sábado, o ministro da Economia, Paulo Guedes, reuniu-se com o líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR). Ontem, Barros e o ministro da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, se encontraram com o líder do governo no Congresso, senador Eduardo Gomes (MDB-TO), e com o senador Marcio Bittar (MDB-AC), relator da PEC do Pacto Federativo e do Orçamento, para discutir a inclusão do programa social bolsonarista na Constituição.
Segundo Barros, Bolsonaro deve participar da declaração conjunta a ser feita no Planalto depois da reunião de hoje. “A meta é Renda Cidadã e desoneração da folha. Isso é a meta do governo. Quais possibilidades, que ferramentas nós temos para atingir a meta? Várias. Como é que a gente vai, quais ferramentas nós vamos escolher para alcançar o objetivo? Nós vamos escolher na reunião”, disse Barros ao Valor. “O combinado aqui é combinar primeiro e anunciar depois. Eu não posso deixar soltar coisas por aí sem as devidas explicações e sem o devido cuidado, para evitar abrir uma crise na negociação.”
A declaração ocorrerá dias depois da cena em que Guedes teve a fala interrompida durante uma entrevista e foi arrastado para longe das câmeras por Ramos e Barros. O episódio refletiu a fúria do presidente com a comunicação da equipe econômica.
Um “cala boca” recaiu sobre o Ministério da Economia e o Palácio do Planalto após a péssima reação de Bolsonaro, registrada em vídeo publicado nas redes sociais, a entrevistas do secretário especial de Fazenda, Waldery Rodrigues. Ele insistiu em fórmulas que, na visão do presidente, significariam “tirar dos pobres para dar aos paupérrimos” para pagar o Renda Brasil - agora renomeado Renda Cidadã.
Após mais de dez dias, o clima ainda é tenso. Ministros e assessores palacianos temem o vazamento de notícias. O mesmo ocorre na pasta da Economia.
A equipe econômica vive o estresse pós-traumático das entrevistas de Waldery. Ameaçado de tomar um “cartão vermelho” pelo presidente, o secretário permanece no cargo. Mas sua situação inspira cuidados.
Guedes e sua equipe não foram os primeiros alvos de uma ordem de silêncio de Bolsonaro. A solicitude de Ramos no trato com a imprensa também irritou o chefe no passado, a ponto de proibir o ministro de conceder entrevistas.
A cena com Guedes reflete também uma nova divisão de tarefas na relação do Executivo com o Congresso. “Agora, tem articulação política”, explicou o ministro, enquanto era retirado de cena.
Guedes não mais lidera a articulação das propostas de interesse de sua pasta. O movimento coincide com a aproximação entre Bolsonaro e o centrão e a consequente troca do líder do governo na Câmara. É concomitante ao desgaste na relação de Guedes com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ).
O ministro ainda dialoga com deputados e senadores, mas agora primordialmente sobre aspectos técnicos. Os arranjos políticos ficam a cargo de Ramos e Barros.
Fonte: Valor Econômico -Brasil, por Fabio Murakawa e Lu Aiko Otta - Brasí, 28/09/2020

