O mercado de coworking, ou espaços de trabalho compartilhado, com 1,5 mil empresas distribuídas em 195 municípios, dá sinais de lenta retomada. “Cerca de 40% dos espaços perderam mais de 75% do faturamento na fase aguda da crise”, afirma Fernando Aguirre, co-fundador do Coworking Brasil - plataforma que reúne mais de 800 espaços de compartilhados.

O otimismo do empresariado, no entanto, aumentou, como aparece no Censo Coworking Brasil, realizado em julho. No início da pandemia, 57% dos entrevistados se diziam otimistas. Agora já são 75%. Os 16% mais otimistas em abril dobraram em julho. “Os números pré-pandemia sobre coworkings apontavam crescimento de até 25%. Hoje, a tendência é de retomada gradual, devendo atingir a normalidade no início de 2021”, afirma. Algumas redes, diz, já ampliaram espaços.

É o caso da líder nacional GoWork. “Do final de março e nos dois meses seguintes houve queda de usuários e inadimplência de até 50%, mas em junho houve aumento da procura pelas grandes companhias”, afirma Fernando Bottura, CEO da GoWork. Ele observa que o melhor mês de vendas dos últimos 12 meses foi agosto, com alta de 30% sobre mesmo mês de 2019. Esta fase traz um novo perfil de interessados. Antes, cerca de 85% eram da área de TI. “Agora há uma nova presença de instituições como bancos, consultorias e escritórios de advocacia.”

Apesar das dificuldades, entre maio de 2019 e março deste ano, a operação praticamente dobrou, totalizando 55 mil metros quadrados. “Para 2021 a expansão ficará perto de 30 mil metros quadrados e aporte de R$ 20 milhões”, afirma. O segredo foi reinventar o tempo inteiro, com novas tecnologias e garantia de segurança. “Só nas adaptações a rede investiu R$ 1 milhão entre soluções UV-C, abertura de janelas, divisores de acrílico e aumento da higienização nas 7,3 mil estações de trabalho”, relata.

A WeWork manteve seu plano de expansão. Em agosto, chegou a 30 unidades em operação. De março a julho, a empresa já havia iniciado as operações em outros seis prédios. A companhia monitora de perto a disseminação da doença e implementou várias medidas para garantir saúde e segurança.

Com 843 unidades no mundo, das quais mais de 100 na China, a WeWork ganhou experiência para lidar com os usuários. “Pudemos usar muito do que aprendemos com nossos times chineses”, diz afirma Lucas Mendes, diretor geral da WeWork no Brasil. Desde o início, diz, muitos ajustes foram feitos. “O plano tem foco em três pilares: distanciamento, higienização e sinalizações comportamentais.”

Outro aprendizado foi a valorização da flexibilidade. Antes da covid, muitas empresas já ofereciam a opção de home office em dias alternados. Nessa linha, a multinacional lançou o “WeWork All Access”, que dá aos clientes acesso gratuito a todas as unidades. “Nosso objetivo é atender à crescente necessidade por flexibilidade e oferecer a possibilidade de uso de opções de espaços onde for mais conveniente.”

Há três anos no mercado a Worká Coworking entrou 2020 com a meta de dobrar o faturamento que cresceu, em média, 50%, desde a abertura. “No primeiro trimestre a receita teve alta de 50% e os usuários de pequenas e médias empresas começaram a se interessar por salas privativas, dentro do espaço compartilhado. Com o baque da pandemia nos vimos forçados a fechar”, conta Tiago Tomazini, proprietário do Worká Coworking.

Apesar do cenário ainda desfavorável o executivo se mostra otimista com a reabertura gradual. “Estamos concedendo descontos de dois dígitos e acreditamos que em 2021 as operações voltem aos níveis de antes”, diz. Ao invés de dobrar a receita, observa, a Worká terá uma queda de 70% sobre 2019. Enquanto isso Tomazini segue à risca as normas de segurança da Organização Mundial da Saúde e investe na substituição de objetos compartilhados por descartáveis, kits de higienização, além de zelar pelo distanciamento.

A Co.W. Coworking Space montou um comitê multidisciplinar para trocar experiências com empresas do resto do mundo. “Revisamos vários procedimentos e processos internos desde a chegada do cliente até a utilização dos espaços, através de uma cartilha, aumento da frequência de higienização dos ambientes com produtos mais eficazes, entre outras medidas”, diz Renato Auriemo, sócio diretor da Co.W. Na sua avaliação, os coworkings permanecem sendo uma boa opção para aqueles que não conseguem trabalhar em casa, seja por questões de infraestrutura, concentração, ou por preferir um ambiente mais interativo.

“Empresas que ainda não pensavam em migrar para espaços de coworking podem considerar essa possibilidade. Se esses espaços souberem aproveitar essa conjuntura, continuarão firmes.”


Fonte: Valor Econômico - Suplementos, por Rosangela Capozoli -Para o Valor, de São Paulo, 28/09/2020