Os números da atividade econômica já divulgados referentes ao terceiro trimestre respaldam que a economia brasileira segue em processo de recuperação, apesar da "sensação ruim" no período, disse ontem José Ronaldo de Castro Souza Junior, diretor de macroeconomia do Ipea, ao apresentar projeções atualizadas do órgão para a atividade.
"A sensação geral talvez seja de uma economia estagnada, mas os números sugerem, olhando friamente, que a paralisação [dos caminhoneiros, em maio] teve efeitos apenas transitórios sobre a economia, que parece já estar retornando à trajetória anterior de retomada", disse Souza Junior, para quem o pessimismo seria fruto da incerteza política e da longevidade do desemprego.
O Ipea estima que o Produto Interno Bruto (PIB) tenha crescido 1,1% no terceiro trimestre na comparação com os três meses imediatamente anteriores, com ajuste sazonal. Se confirmada, a economia terá apresentado uma crescimento mais rápido do que no segundo trimestre, quando avançou apenas 0,2% frente ao três meses imediatamente anteriores, pela série que elimina os efeitos sazonais. O resultado, se confirmado, será o melhor nessa base de comparação desde o segundo trimestre de 2013 (2,2%).
Essa aceleração seria reflexo, em parte, de uma base de comparação menor do segundo trimestre, marcado pela paralisação de 11 dias dos caminhoneiros no fim de maio. Também refletiria uma melhora na margem do desempenho da indústria, do varejo e do mercado de trabalho, apesar de não serem "indicadores maravilhosos".
Pelas projeções apresentadas ontem pelo Ipea, o PIB da indústria deve crescer 2,1% no terceiro trimestre na comparação com o período de abril a junho, com ajuste sazonal. A atividade de serviço (0,9%) e a agropecuária (1,1%) também devem exibir crescimento do valor agregado bruto por essa base de comparação.
Desta forma, o PIB deverá crescer 1,6% no acumulado deste ano, previsão um pouco acima da média das projeções de analistas do mercado, de 1,35% segundo o mais recente Boletim Focus, do Banco Central. De acordo com Souza Junior, do Ipea, a recuperação não seria mais rápida por causa da "armadilha fiscal", que afeta expectativas de empresários e investidores.
Para o próximo ano, o Ipea prevê aceleração do crescimento do PIB, para 2,9%. Este cenário considera que o próximo presidente da República vai anunciar, imediatamente após as eleições, medidas para controlar da trajetória das contas públicas - independentemente de quem for eleito. Entre elas, a manutenção do teto dos gastos públicos e a reforma da Previdência.
"Um dos pontos fundamentais é a Previdência, já que com as regras atuais dificilmente se controla os gastos", acrescentou o diretor de macroeconomia do Ipea. "O desequilíbrio fiscal, ao colocar a dívida em trajetória de alta, gera incertezas que afetam as decisões de investimento e de consumo de mais longo prazo. Isso aumenta o risco financeiro percebido pelos investidores."
No relatório "Visão Geral de Conjuntura" do Ipea, a dívida bruta do governo geral (governo federal, INSS, governos estaduais e municipais) seguirá em trajetória ascendente até 2023, quando vai representar 82,3% do PIB. Esse cenário já considera a manutenção do teto dos gastos.
Fonte: Valor - Macroeconomia, por Bruno Villas Bôas, 28/09/2018

