Mesmo com a retomada persistente da arrecadação, as contas públicas em agosto devem ter registrado déficit primário pelo quarto mês seguido. Segundo a estimativa média de 13 consultorias e instituições financeiras ouvidas pelo Valor Data, os cofres do governo central ficaram negativos em R$ 15,9 bilhões no mês passado. Em agosto do ano passado, o déficit do governo central, formado por Tesouro, Previdência e Banco Central (BC), havia sido de R$ 10,5 bilhões.
O número do mês passado será divulgado hoje pelo Tesouro. As previsões são todas negativas e vão de R$ 2,5 bilhões a R$ 28,5 bilhões. Já para o acumulado de 12 meses, os economistas esperam, em média, déficit de R$ 89,9 bilhões. A última vez em que as contas de agosto ficaram no azul foi em 2012, quando houve superávit de R$ 1,9 bilhão, em valores corrigidos pela inflação.
Em julho deste ano, o governo central também registrou rombo, de R$ 7,5 bilhões no mês e de R$ 88,5 bilhões em 12 meses. Para José Francisco de Lima Gonçalves, economista-chefe do Banco Fator, o déficit do governo central foi de R$ 13,6 bilhões em agosto, atingindo R$ 90 bilhões em 12 meses. Ele calcula que o acumulado deve terminar o ano na casa dos R$ 145 bilhões a R$ 150 bilhões negativos - número menor que a meta de R$ 159 bilhões, mas que oferece poucos motivos para comemoração.
"Um resultado um pouco melhor do que a meta já entrou na conta [do mercado]", diz. "Mas é algo que estará longe de melhorar o ambiente." A arrecadação de agosto ficou em R$ 109,7 bilhões, alta real de pouco mais de 1% em relação ao mesmo mês de 2017. O Bradesco destaca em relatório o aumento de receitas ligadas à atividade econômica, como os impostos sobre importação, o Imposto de Renda Pessoa Jurídica (IRPJ) e a Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL). A instituição financeira espera um resultado negativo de R$ 18 bilhões.
A retomada da arrecadação na comparação anual começou a aparecer nas planilhas ainda em 2017. Além da atividade econômica, os cofres do governo vêm sendo ajudados pela valorização do dólar e do barril de petróleo no mercado internacional, que geram maiores pagamentos de royalties. No entanto, o crescimento de despesas obrigatórias, como as da Previdência, atrapalha o retorno das contas públicas para o terreno positivo.
O Haitong calcula um déficit primário de R$ 6,5 bilhões do governo central em agosto. "Embora menos dramático do que no ano passado", o número indica que o aumento do endividamento público brasileiro continuará, reforçando "a inquestionável necessidade de reformas estruturais que inibam a voracidade do governo".
O Santander, que estima déficit de R$ 20,4 bilhões em agosto, também chama a atenção para "a elevada vulnerabilidade fiscal", classificada pela instituição como "o maior desafio do próximo governo" O banco destaca que esse cenário pode ter consequências para a política monetária, levando a uma alta futura da taxa básica de juros, já que "uma possível frustração com as reformas" é apontada pelo BC "como um fator de risco para a inflação".
Está prevista para sexta-feira a divulgação também dos números do setor público consolidado, que, além do governo central, inclui Estados, municípios e estatais. Entre as estatais, somente Petrobras e Eletrobras ficam fora da conta. Para o setor público, 11 analistas projetam, em média, déficit de R$ 16 bilhões em agosto, com resultado também negativo de R$ 85,2 bilhões no acumulado de 12 meses.
Fonte: Valor - Macroeconomia, por Estevão Taiar, 26/09/2018

