A solidez das contas externas brasileiras tem sido um trunfo importante para evitar uma pressão ainda maior sobre o câmbio, num momento marcado pela incerteza no quadro eleitoral e de piora no cenário internacional para países emergentes. O déficit em conta corrente segue abaixo de 1% do PIB, um resultado bastante tranquilo, financiado com folga pelo investimento direto no país (IDP) e muito inferior ao rombo registrado por países como Argentina e Turquia, superior a 5% do PIB.
Para completar, o volume de reservas internacionais, acima de US$ 381 bilhões, é muito elevado. Supera a dívida externa total do país e equivale a mais de 400% os débitos externos que vencem em menos de um ano.
"Os indicadores de endividamento externo mostram uma situação bastante confortável", resume a economista-chefe da Rosenberg Associados, Thais Marzola Zara. "Esse é um importante colchão de segurança para o Brasil", diz ela, destacando que se trata de uma situação bem diferente da de crises anteriores, que eram acompanhadas ou causadas por problemas no balanço de pagamentos.
Os números do Banco Central evidenciam a força das contas externas do Brasil, muito diferente do que se passa com a situação fiscal, essa sim a grande fragilidade do país. Nos 12 meses até agosto, o déficit em conta corrente ficou em US$ 15,5 bilhões, o que corresponde a 0,8% do PIB. É mais que o 0,44% do PIB nos 12 meses até janeiro, mas está longe de ser um número alarmante. Com a recuperação da economia, ainda que lenta, era esperada a piora do resultado nas transações de bens, serviços e rendas do país com o exterior.
O ajuste nas contas externas ocorreu principalmente por causa da grave recessão que durou do segundo trimestre de 2014 ao quarto trimestre de 2016. O déficit em conta corrente levou tempo para encolher. Alcançou o máximo de 4,4% do PIB em março e abril de 2015, passando então a recuar com força, com queda expressiva das importações. O câmbio mais desvalorizado também contribuiu para o movimento, ao encarecer as compras externas e tornar mais competitivas as vendas de produtos brasileiros no exterior.
Essa combinação levou o buraco na conta corrente a diminuir para níveis inferiores a 0,5% do PIB no fim de 2017 e começo de 2018, até começar a subir a partir de fevereiro deste ano no acumulado em 12 meses. O aumento, contudo, não preocupa, ainda mais porque o saldo entre entradas e saídas de investimento estrangeiro direto no país segue bastante alto. Nos 12 meses até agosto, ficou em quase US$ 70 bilhões, ou 3,61% do PIB, o equivalente a quatro vezes e meia o buraco em conta corrente de 0,8% do PIB observado no período.
Esse déficit é pequeno na comparação com o resultado de outros países emergentes. O Fundo Monetário Internacional (FMI), por exemplo, estima que o rombo nas transações com o exterior da Argentina ficará em 5,1% do PIB em 2018, enquanto o da Turquia deve alcançar 5,4% do PIB. Esses dois são os emergentes mais encrencados, apresentando rombos externos enormes num momento em que os juros americanos estão em alta, o que atrai capitais para os EUA. O buraco brasileiro tambem é menor que o de países como África do Sul (-2,9% do PIB), Índia (-2,3% do PIB) e México (-1,9% do PIB). Já China e Rússia terão superávit neste ano, de 1,2% do PIB e 4,5% do PIB, nas projeções do FMI.
A situação das contas externas protege o Brasil de pressões ainda mais intensas sobre o câmbio. As incertezas em relação às eleições e a piora do quadro externo, com elevação dos juros americanos e crise na Argentina e na Turquia, poderiam se traduzir numa desvalorização ainda mais forte do real, mas a solidez externa atenua os movimentos. É uma situação diferente da registrada em 2002, quando as incertezas eleitorais levaram o dólar a bater em R$ 4, o que equivaleria hoje a algo próximo de R$ 7 em valores corrigidos.
Números da agência de classificação de risco Standard & Poor′s (S&P) dão outra medida do bom momento das contas externas do país. As reservas brasileiras que podem ser utilizadas cobrem o equivalente a mais de 15 meses dos pagamentos em conta corrente, que incluem gastos com importações de bens e serviços, por exemplo, segundo estimativas da S&P para 2018. Na Argentina, o número não chega a 6 meses e, na Turquia, é de apenas 1,4. O indicador brasileiro é superior até mesmo ao da China, correspondente a 14 meses.
Fonte: Valor - Macroeconomia, por Sergio Lamucci, 25/09/2018

