Ainda sem muito brilho, a economia está sobrevivendo a uma avalanche de informações ruins e deve mostrar recuperação no terceiro trimestre, avalia o Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV). Com ajuda da base de comparação fraca do trimestre anterior, o Ibre estima que Produto Interno Bruto (PIB) vai crescer 0,9% de julho a setembro sobre os três meses encerrados em junho, feitos os ajustes sazonais.
"Apesar dos cenários externo e doméstico turbulentos, o desempenho da atividade econômica, pelo menos no curto prazo, segue em linha com o esperado", afirmam os economistas Armando Castelar Pinheiro e Silvia Matos na edição deste mês do Boletim Macro, divulgado com exclusividade ao Valor. Para 2018, a expectativa de crescimento econômico foi mantida em 1,5%.
Segundo Silvia, o cenário para o curto prazo está longe de ser auspicioso, mas não chega a ser um desastre. Como evidências de que a atividade segue em trajetória gradual de retomada, ela cita dados como o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), a produção industrial e a geração de empregos formais.
Todos eles surpreenderam positivamente nas últimas divulgações, afirma. Ao mesmo tempo, os indicadores já conhecidos para agosto apontam bom desempenho da indústria, que deve ter crescido 2,5% no mês em relação a igual período de 2017.
No terceiro trimestre, o Ibre conta com expansão de todos os setores do PIB pelo lado da oferta. Segmento mais afetado pela paralisação dos caminhoneiros - que bloqueou estradas em todo o país durante 11 dias em maio -, a indústria deixou retração de 0,6% no segundo trimestre e, agora, avançou 0,9%, influenciada principalmente por alta de 1,7% no setor de transformação.
De acordo com a economista, alguns ramos da indústria, mais voltados para as exportações, estão sendo beneficiados pela desvalorização do real. Mesmo o setor automobilístico, que destina grande parte de suas vendas externas para a Argentina, tem conseguido driblar a crise no país vizinho, observa. "Com os novos acordos comerciais feitos recentemente com outros países da região, o setor vai conseguir sobreviver. Não é que isso vai salvar a economia, mas dá um fôlego no curto prazo", pondera Silvia.
Do lado da demanda, a perspectiva é mais animadora para o consumo, que, para a entidade, subiu 1% no trimestre terminado em setembro, após ficar praticamente estável na medição anterior (0,1%). Na visão do Ibre, a melhora nas condições de crédito para pessoas físicas, o aumento na massa de rendimentos e o desempenho mais favorável do varejo apontam reação sustentada da demanda das famílias, que deve crescer 2% em 2018.
Para a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF, medida das contas nacionais do que se investe em máquinas, construção civil e pesquisa), o instituto trabalha com expansão de 2,1% entre o segundo e o terceiro trimestres, que vai suceder tombo de 1,8% no dado anterior. Para 2018, a expectativa é que os investimentos subam 3,4%, variação que, de acordo com Silvia, representa a maior frustração do ano. "O setor de construção civil tem vindo mais negativo", disse.
Além disso, destacam os economistas Tabi Thuler Santos e Silvio Sales na seção de confiança do boletim, "a relativa estabilidade da confiança em agosto retrata um quadro em que, na presença de incerteza elevada, os agentes econômicos permanecem em compasso de espera". Entre julho e o mês passado, o Índice de Confiança Empresarial (ICE) medido pelo Ibre aumentou 0,1 ponto, para 91,6 pontos, enquanto o Índice de Confiança do Consumidor (ICC) diminuiu 0,4 ponto, para 83,8 pontos.
"Diante de um quadro de incertezas internas e externas, lenta recuperação do mercado de trabalho, risco de aceleração da inflação e dificuldades com o orçamento familiar, é difícil imaginar que a confiança retome a trajetória de alta de forma consistente nos próximos meses", avaliam Tabi e Sales.
Fonte: Valor - Macroeconomia, por Arícia Martins, 25/09/2018

