O investimento direto no país (IDP), considerado a fonte mais estável de financiamento das contas externas, caiu em agosto, conforme o Banco Central (BC). Os dados foram divulgados ontem, um dia após o presidente Jair Bolsonaro afirmar em discurso na Organização das Nações Unidas (ONU) que, mesmo com a pandemia, os investimentos no Brasil vinham crescendo.

No mês passado, o IDP atingiu US$ 1,4 bilhão, recuo de quase 85% em relação aos US$ 9,5 bilhões de agosto de 2019. Embora os dados mensais sejam muito voláteis, o recuo em agosto ocorre dentro de uma tendência de redução dos fluxos de capitais externos.

No acumulado de 12 meses, o IDP atingiu US$ 54,5 bilhões, o equivalente a 3,51% do Produto Interno Bruto (PIB), ante US$ 68,5 bilhões em fevereiro, ou 3,83% do PIB. A queda de agosto foi também a segunda consecutiva no acumulado de 12 meses, o que levou o IDP para o menor patamar desde julho de 2018, quando atingiu 3,34% do PIB.

A tendência é que haja novo recuo, já BC que projeta que o IDP ficará em US$ 2 bilhões neste mês. Caso o número se confirme, o acumulado em 12 meses irá para a casa dos US$ 50 bilhões, segundo o chefe do departamento de estatísticas da autoridade monetária, Fernando Rocha. Ou seja: o IDP ficaria abaixo da projeção mais recente de US$ 55 bilhões para 2020 feita pelo BC. Hoje, no Relatório Trimestral de Inflação (RTI), a autoridade monetária divulga a sua nova estimativa para o ano.

“As incertezas da pandemia continuam a afetar os fluxos de IDP”, disse Rocha em entrevista coletiva. Ele destacou que a entrada desses recursos no país depende de fatores como lucratividade, financiamento e tempo de retorno do investimento. “Em uma situação de incerteza tão aguda, inédita, é até esperado que esse investimento possa ter uma recuperação mais gradual. É isso que estamos vendo nessa perspectiva mais ampla.”

O IDP também apresentou queda na comparação do acumulado do ano. Entre janeiro e agosto, ele somou US$ 26,9 bilhões, contração de mais de 41% em relação ao mesmo período de 2019.

Na terça-feira, em seu discurso na ONU, Bolsonaro afirmou que, apesar da pandemia, os investimentos estrangeiros no país aumentaram no primeiro semestre em relação ao mesmo período de 2019. “Isso comprova a confiança do mundo em nosso governo”, disse. Como o Valor mostrou, no entanto, o IDP caiu 30% em relação ao primeiro semestre de 2019.

Economistas, como o ex-presidente do BC Arminio Fraga e o próprio atual presidente da autoridade monetária, Roberto Campos Neto, têm defendido a importância da agenda ambiental como forma de atrair investimentos estrangeiros para o país.

Especialistas em meio ambiente criticaram o discurso de Bolsonaro. O presidente minimizou a dimensão das queimadas recentes na Amazônia e no Pantanal e acusou estrangeiros de promoverem uma “campanha de desinformação” sobre o tema com “interesses obscuros”.

Em relatório, o diretor do departamento de pesquisa econômica para a América Latina do Goldman Sachs, Alberto Ramos, chamou a atenção também para o IDP líquido, que desconta os investimentos diretos brasileiros no exterior. No mês passado, o indicador ficou em US$ 400 milhões, contra US$ 8,1 bilhões em agosto de 2019, segundo Ramos.

Ainda assim, o IDP segue financiando com folga o déficit em conta corrente. O saldo das transações em conta corrente, que mede a diferença entre o que o país gasta e o que recebe nas transações internacionais relacionadas a comércio, rendas e transferências unilaterais, vem recuando desde o primeiro semestre. Puxado pela queda da atividade econômica, câmbio desvalorizado (que facilita as exportações e dificulta as importações) e restrições a viagens, passou de 2,97% do PIB nos 12 meses até maio para 1,64% do PIB no mês passado.

“Apesar da queda observada nos últimos meses, essa modalidade de investimento (IDP) segue a principal fonte de financiamento do déficit em conta corrente nos últimos 12 meses”, diz a equipe econômica do Itaú Unibanco em relatório.

O BC calcula superávit em conta corrente de US$ 3,7 bilhões em setembro. Caso o número se confirme, será o sexto resultado positivo mensal consecutivo, o que não acontece desde 2006. Para 2020, a autoridade monetária projeta déficit de US$ 13,9 bilhões, ou 1% do PIB, mas pode revisar o número hoje no RTI.

Já o Itaú calcula “saldo em conta corrente perto de zero, ou até marginalmente positivo nos próximos anos”.

Na entrevista, Rocha, do BC, também afirmou que “aparentemente aquele período de saída mais aguda de recursos de portfólio do pais acabou”. Em junho, julho e agosto, houve ingresso líquido desse tipo de investimento - que é, no entanto, mais volátil do que o IDP. O dado parcial de setembro até o dia 18 registra entrada líquida de US$ 472 milhões.


Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Estevão Taiar e Alex Ribeiro - de São Paulo, 24/09/2020