Os indicadores de atividade sinalizam recuperação da economia semelhante à de outros países para o Brasil no curto prazo, e a extensão do auxílio emergencial até o fim do ano será um impulso favorável ao quarto trimestre, avalia o Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV). O aumento da incerteza em relação à política fiscal, no entanto, deve impedir retomada mais consistente dos investimentos.

Antecipada ao Valor, a edição de setembro do Boletim Macro manteve praticamente inalteradas as projeções para o desempenho do Produto Interno Bruto (PIB), que deve cair 5,3% em 2020, com reação mais expressiva no terceiro trimestre e comportamento positivo também nos três meses finais do ano, embora em velocidade menor.

Por outro lado, o quadro fiscal é “assustador” e mantém a incerteza econômica em nível incômodo, afirmam os pesquisadores Armando Castelar e Silvia Matos na abertura do boletim. Medido pelo Ibre/FGV, o Indicador de Incerteza da Economia (IIE-Br) referente à política fiscal marcou 139,3 pontos na prévia de setembro, após ter ficado em 143,6 pontos em agosto. Em igual intervalo, o componente que mensura a incerteza política caiu 8,8 pontos, para 122,3 pontos.

Em relação ao patamar máximo atingido em abril, o indicador fiscal caiu 50,1 pontos, redução bem menos intensa do que a verificada no componente de incerteza política no período, de 68,1 pontos, observam Castelar e Matos. “Em parte isso reflete o quadro fiscal muito ruim previsto para este ano”, apontam eles.

Nas estimativas do Ibre/FGV, já incluindo o pagamento das quatro parcelas extras de R$ 300 do auxílio, o déficit primário deve atingir 12,6% do PIB em 2020. Já a dívida do setor público deve terminar o ano em 94,9% do PIB.

Para 2021, porém, as projeções fiscais estão totalmente em aberto. “As incertezas e os riscos econômicos que nos aguardam parecem só aumentar com o frequente desencontro de discursos entre governo e equipe econômica”, afirmam os pesquisadores Juliana Damasceno e Matheus Rosa Ribeiro na seção fiscal.

No fim de agosto, a divulgação do Projeto de Lei Orçamentária (PLOA) do próximo ano frustrou expectativas de maiores esclarecimentos sobre como o governo harmonizaria sustentabilidade fiscal, demandas por mais investimentos públicos e a manutenção de um programa de transferência de renda aos fragilizados pela pandemia, apontam Damasceno e Ribeiro.

Depois disso, acrescentam os pesquisadores, as declarações do presidente Jair Bolsonaro descartando a criação do Renda Brasil colocaram em dúvida a capacidade futura de sustentação da demanda e da atividade sem esse socorro financeiro. “A recente manifestação política do governo de não criar o Renda Brasil deixa à deriva demandas altamente prováveis por mais gastos, dada a continuidade da pandemia no Brasil e de seus efeitos após 31 de dezembro deste ano”, dizem Damasceno e Ribeiro.

Coordenadora técnica do boletim Macro, Silvia Matos destaca o impacto negativo do imbróglio fiscal sobre os investimentos, cuja recuperação dentro do PIB já seria dificultada somente pela pandemia. “O Brasil tem ainda esse componente adicional de incerteza econômica, que atrapalha a volta dos investimentos.”

O Ibre/FGV espera que a formação bruta de capital fixo (FBCF, medida das Contas Nacionais do que se investe em máquinas, construção civil e inovação) suba 8,9% entre o segundo e o terceiro trimestres, feitos os ajustes sazonais, mas a economista pondera que a alta se deve muito mais à base de comparação fraca de abril a junho, quando a FBCF encolheu 15,4%. Na média do ano, os investimentos produtivos devem recuar 7,4% ante 2019.

Com a pressão do lado fiscal, as condições financeiras domésticas pioraram, mesmo com a Selic em patamares historicamente baixos, porque os juros mais longos subiram, nota Silvia. Nesse cenário, o investimento é o maior prejudicado, diz ela, que também destaca o câmbio mais desvalorizado como outro limitante à FBCF, já que as importações de máquinas e equipamentos ficam mais caras.

“Do lado do investimento, vamos repetir a história que a gente já conhece: a economia vai, e o investimento, tirando a construção civil, não acompanha”, afirma a pesquisadora, para quem essa tendência deve se manter no ano que vem. “Com o investimento e o emprego não voltando, a sensação é que ainda teremos uma economia longe de qualquer normalização.”

No cenário do Ibre/FGV, o PIB vai crescer 3,5% em 2021, mas Silvia ressalta que um ponto percentual dessa alta deve-se somente à perspectiva de recuperação do consumo do governo. Neste ano, o setor foi duramente atingido pelo adiamento das aulas na rede pública de educação e pela redução na prestação de serviços públicos de saúde.


Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Arícia Martins - de São Paulo, 24/09/2020