A queda do juro real, que renovou suas mínimas históricas nesta semana, deve estimular a busca por ativos mais rentáveis e o aumento da exposição ao risco no mercado. De acordo com analistas, o segmento de renda variável deve ser um dos mais favorecidos pelo movimento, enquanto o real brasileiro pode continuar sofrendo com os efeitos colaterais dos juros baixos.
“O novo nível de juro real, mais baixo do que o padrão histórico, já está gerando uma revolução na alocação de ativos financeiros no país”, afirma Julio Fernandes, sócio e gestor multimercados macro na XP Asset. “Nunca convivemos com juros baixos por muito tempo, então o investidor brasileiro nunca precisou fazer essa realocação de maneira estruturada.”
O profissional explica que taxas reduzidas estimulam a procura por rendimento e os investidores devem migrar grande parte da poupança da renda fixa básica para ativos com potencial de retornos maiores, sejam eles fundos multimercados, imobiliários ou renda variável.
“O juro real baixo pode ter um impacto grande no mercado financeiro, desde que vigore por um bom tempo”, afirma Fernando Rocha, economista-chefe da JGP. De acordo com o profissional, a procura por rendimento deve levar os investidores a alocarem seus recursos em ativos mais arriscados ou de mais longo prazo, como ações.
Além disso, o cenário também se traduz em pressão para que os bancos reduzam a taxa de administração dos fundos. “Há um incentivo ao crédito, pois os bancos vão procurar um uso mais rentável para o dinheiro. As taxas de empréstimos e crédito em geral devem cair”, acrescenta Rocha. O funding para atividades de risco como “private equity” e “venture capital” deve se tornar mais abundante. “Enfim, são transformações benéficas para a economia real”, destaca.
Por outro lado, os ativos de renda fixa no Brasil se tornam um pouco menos atrativos, mesmo que ainda carreguem algum prêmio em um mundo cada vez mais carente de juros. “As taxas estão diminuindo em todo o mundo, mas estão recuando aqui de maneira mais rápida”, aponta Solange Srour, economista-chefe da ARX.
“Assim, os ativos ligados a economia real, como a bolsa, são os maiores beneficiados. Juro mais baixo sugere melhora de ‘valuation’ e aumento de lucro das empresas”, acrescenta Solange.
Hoje, as apostas em juros baixos devem ser colocadas à prova pela a ata da reunião de semana passada do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC). Em seguida serão conhecidos os indicadores de inflação do IPCA-15 e o discurso do presidente Jair Bolsonaro na Organização das Nações Unidas (ONU).
“Para os padrões brasileiros, uma taxa de juros real em cerca de 2% é algo historicamente baixo. A esse respeito, resta ver como o banco central reagirá à renovada fraqueza do real”, afirma a economista You-Na Park-Heger, do Commerzbank. Ontem, o dólar chegou a ultrapassar R$ 4,18 novamente. Em relatório, ela nota que, “no passado, o câmbio certamente teria sido um argumento para uma postura mais cautelosa por parte do BC”, mas ressalta que, agora, este não é o caso e “alguma depreciação adicional do real é bastante tolerável”.
Fonte: Valor - Finanças, por Victor Rezende e Lucas Hirata |De São Paulo, 24/09/2019

