A queda generalizada dos preços dos alimentos acentuou o processo de desinflação da economia em setembro, quando o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo-15 (IPCA-15) desacelerou para 0,11%, a menor prévia da inflação para o mês desde 2006 (0,05%). O resultado impulsionou as apostas no mercado de inflação pela primeira vez abaixo de 3%, o piso da meta.

Divulgado ontem pelo IBGE, o IPCA-15 recuou para 2,56% pelo indicador acumulado em 12 meses, o menor resultado nessa base de comparação desde fevereiro de 1999 (1,80%). Segundo economistas, a leitura mostrou-se favorável, com pressões inflacionárias pouco disseminadas e desaceleração dos preços de serviços e da média dos três núcleos, que buscam reduzir a influência de itens mais voláteis.

O resultado foi ainda abaixo das estimativas de 22 consultorias e instituições financeiras ouvidas pelo Valor Data. Elas previam, na média, que a inflação desaceleraria para 0,15% neste mês. O intervalo dessas estimativas ia de 0,05% a 0,23%. Para o índice acumulado em 12 meses, os analistas haviam previsto, na média, alta de 2,61%.

Um dos principais responsáveis pelo ciclo desinflacionário, os alimentos e bebidas tiveram baixa de 0,94% na prévia de setembro. De cada três alimentos para consumo em casa, dois tiveram baixa de preço, com destaque para tomate (-20,94%), feijão-carioca (-11,67%) e alho (-7,96%). No acumulado de 12 meses, esse grupo de preços recua 2,21%, maior queda apurada desde o início do Plano Real.

Segundo André Braz, economista do Ibre-FGV, os preços dos alimentos tendem a subir nos próximos meses, reflexo da sazonalidade de fim de ano "Mesmo assim, nada que preocupe. Os preços de alimentos não vão ser um problema para a inflação", avalia Braz.

Além da baixa dos alimentos, o IPCA-15 de setembro foi ajudado pela perda de fôlego da tarifa de energia e dos preços dos combustíveis, que haviam pressionado o índice em agosto. A energia residencial ficou 0,40% menor, após ter subido 4,27% no mês anterior. Os combustíveis até subiram 3,43% em setembro, mas uma alta menor que em agosto (5,96%).

Para Leonardo França, economista da Rosenberg Associados, o IPCA "cheio" de setembro será ainda menor que a prévia. Com a dissipação da alta dos preços dos combustíveis, o IPCA deve marcar 0,05% no mês.

Com a evolução da inflação melhor que o previsto, o banco UBS revisou para baixo a projeção para o IPCA deste ano, de 3,2% para 2,9% - abaixo do piso da meta. Em relatório, os economistas Tony Volpon e Fabio Ramos avaliaram que a economia está em recuperação, mas ainda há ociosidade para crescimento sem inflação.

Luis Otávio Leal, economista do banco ABC Brasil, também revisou a projeção, de 3,1% para 3%. Segundo ele, o índice deve se acelerar a partir de outubro, com menor deflação dos alimentos e mudança da bandeira da tarifa de energia, que deverá passar de amarela para vermelha em outubro. "Minha projeção ainda prevê a inflação dentro do limite inferior da meta, mas não descarto que fique um pouco abaixo disso. Basta alguma pequena nova surpresa", disse. A Rosenberg Associados e o banco Pine preveem o IPCA em 2,8%.

Para Alberto Ramos, chefe de pesquisa econômica para América Latina do Goldman Sachs, o ambiente benigno da inflação atual e de médio prazo, expectativas bem ancoradas de preços e câmbio, além do nível significativo de ociosidade da economia, vão encorajar o Copom a cortar mais a Selic.

"Esperamos que o Copom corte a taxa [Selic] em 0,75 ponto percentual na reunião de outubro, e mais 0,50 ponto na de dezembro, levando a Selic para 7%", disse Ramos em relatório a clientes.


Fonte: Valor - Macroeconomia, por Bruno Villas Bôas, 22/09/2017