O governo chinês deve atuar para impedir que a reestruturação das dívidas das empresas chegue a casos extremos, como o da Evergrande, mas a desalavancagem do setor imobiliário tende a continuar. Ainda assim, um risco de contágio para toda a economia chinesa ou mesmo para os mercados globais é improvável, diante de uma abordagem de “demolição controlada”, na visão do Lombard Odier.

“O contágio financeiro duradouro e significativo é altamente improvável, e os mercados globais devem ter uma recuperação assim que os planos do governo se tornarem claros”, ressalta o estrategista de macro para Ásia, Homin Lee. Ele lembra que o próprio mercado de capitais onshore [na China Continental] permanece relativamente calmo.

Segundo especialista, na “demolição controlada”, autoridades chinesas vão resolver “um ou dois casos por vez — Foto: Qilai Shen/Bloomberg

Segundo o especialista, na estratégia de “demolição controlada”, as autoridades chinesas vão resolver “um ou dois casos por vez”, conforme a necessidade. “O governo dispõe de amplos meios para realizar uma reestruturação relativamente tranquila de Evergrande”, afirma o estrategista do banco suíço especializado em private banking.

Para Lee, o governo chinês deve reestruturar a empresa e, em seguida, minimizar as consequências por meio da orientação do setor e da compensação de flexibilização regulatória. Em relação às incertezas sobre a capacidade fiscal do governo não em resgatar os incorporadores, o estrategista ressalta que essa é a maneira errada de ver o problema.

“O que mais importa para os credores é a credibilidade da reestruturação isolada para essas incorporadoras imobiliárias vulneráveis, pois são entidades privadas que não receberão apoio estatal direto”, pondera.

Além disso, ele lembra que, atualmente, a política monetária e fiscal na China está em um “ambiente apertado”. “Portanto, o governo tem espaço para afrouxar ainda mais”. Ele acrescenta que o objetivo do governo chinês é cumprir com a política chamada de “Três Linhas Vermelhas” em toda a indústria imobiliária nos próximos anos.

De um modo geral, as “Três Linhas Vermelhas” determinam: máximo de 70% de passivos em relação aos ativos; dívida líquida limitada a 100% do patrimônio líquido; liquidez superior às obrigações de curto prazo. “Parece algo exigente, pois requer a redução do passivo do setor, no valor de 16 a 20 trilhões de renminbi”, diz Lee.

Por isso, o estrategista do Lombard Odier avalia que a Evergrande continua sendo um “teste sério” para o ecossistema financeiro da China. “No entanto, a tendência de desalavancagem de médio prazo significa que as empresas que sobreviverem a esse processo terão dificuldades em atrair investidores em busca de oportunidades de crédito”, conclui.

 

Fonte: Valor Econômico - Mercado, por Olívia Bulla, Valor — São Paulo, 21/09/2021