
O choque sem precedentes provocado pela pandemia da covid-19 no mercado de trabalho reduziu bruscamente a jornada dos trabalhadores brasileiros, que recuou em magnitude muito acima do valor adicionado à economia no segundo trimestre. Como a queda do nível de produção foi menos intensa do que a das horas efetivamente trabalhadas, a produtividade do trabalho nessa ótica cresceu no período, aponta estudo do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV).
Esse movimento, no entanto, não configura um avanço genuíno da eficiência dos trabalhadores e pode ser revertido rapidamente. Isso poderia ocorrer à medida que, com o fim das políticas de compensação da renda do governo e das diretrizes de isolamento social, pessoas hoje fora da força de trabalho voltem a procurar uma vaga, e que o trabalho informal volte a ganhar espaço no contingente de mão de obra, alertam os pesquisadores responsáveis pelo levantamento, antecipado ao Valor.
Na comparação com igual período do ano passado, as horas efetivamente trabalhadas diminuíram 27,6% no segundo trimestre, ao passo que o valor adicionado encolheu 10,8%. Como resultado, a produtividade por hora efetivamente trabalhada subiu 23,3% em igual intervalo, estimam os economistas Fernando Veloso, Silvia Matos e Paulo Peruchetti, que destacam o caráter atípico do comportamento do emprego na crise atual, principal fator que estaria por trás do aparente salto da produtividade.
Principais beneficiados pelo auxílio emergencial, os trabalhadores informais - em geral menos escolarizados e que exercem atividades tipicamente menos produtivas - saíram do mercado de trabalho, o que parece ter contribuído positivamente com os resultados de abril a junho.
Outra política do governo que pode ter ajudado a reduzir as horas trabalhadas sem diminuir o nível de ocupação em igual intensidade foi a Medida Provisória (MP) 936, que permitiu o corte de jornada e salários e a suspensão de contratos de empregados com carteira assinada.
“Nesse sentido, precisamos ter cautela de não interpretar que o aumento da produtividade tenha a ver com o uso mais disseminado da tecnologia, por exemplo. Ele pode não ter nada a ver com as razões pelas quais muita gente esperaria”, diz Veloso, para quem o ganho de eficiência por hora trabalhada nessa medida tende a ser temporário.
O cálculo preferido pelo Ibre/FGV para analisar a produtividade do trabalho é a medida por horas habitualmente trabalhadas, conceito que reflete como seria a jornada média, excluindo situações atípicas como férias e feriados. Nessa ótica, a produtividade caiu 0,3% no segundo trimestre ante igual intervalo de 2019, com queda de 10,5% nas horas trabalhadas.
No entanto, devido ao caráter atípico da recessão atual - que fez as pessoas trabalharem muito menos horas do que o padrão - a produtividade por horas efetivamente trabalhadas seria o conceito mais fidedigno no momento, avaliam Veloso, Silvia e Peruchetti. Esse dado faz parte da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, do IBGE, em que o instituto pergunta aos entrevistados quantas horas foram de fato passadas trabalhando por semana.
“Embora eventualmente estejam ocupadas, as pessoas estão trabalhando muito menos horas”, nota Veloso. Isso pode estar relacionado à medida do governo para preservar empregos formais, que permitiu às empresas suspenderem contratos sem encerrar o vínculo empregatício e reduzirem a jornada de trabalho.
Outra possível explicação, segundo ele, seriam as políticas de suporte à renda, com destaque para o auxílio emergencial, que reduziram o contingente de informais no mercado de trabalho, efeito que tende a ser pontual. As horas efetivamente trabalhadas pelos informais caíram 33,1% de abril a junho em relação a igual período de 2019. Na categoria de ocupados no setor formal, a retração foi menor, de 23,4%.
“É difícil interpretar a produtividade no meio de uma pandemia. Mas, se esse aumento tiver a ver com políticas transitórias, o auxílio vai acabar, essas pessoas vão voltar ao mercado de trabalho e isso vai se reverter”, avalia Veloso, para quem os dados do segundo trimestre não devem alterar a tendência de longo prazo de perda de produtividade da economia brasileira. Além disso, acrescentou, em todas as recessões atravessadas pelo país, esse indicador teve comportamento negativo.
Outra hipótese abordada na análise que pode ser explicação adicional para o ganho de produtividade do trabalho no período seria o “efeito composição”: o setor mais afetado na recessão provocada pela pandemia é o de serviços, que engloba atividades de menor eficiência produtiva. Este ano, houve queda mais forte do emprego informal e a desocupação subiu mais entre pessoas de baixa escolaridade, notam os pesquisadores do Ibre/FGV.
“Mas o efeito composição, se foi favorável nesse momento, também vai desaparecer rápido”, conforme o impacto da pandemia sobre o emprego no segmento de serviços for se dissipando, aponta Silvia. Pelo conceito de horas efetivamente trabalhadas, o Ibre/FGV calcula que a produtividade dos serviços subiu 26,3% no segundo trimestre, acima da alta verificada na indústria (21,7%) e a na agropecuária (12,6%).
Como as horas de fato trabalhadas caíram com maior intensidade aqui do que em outros países nos três meses encerrados em junho, a produtividade nessa medida subiu muito mais no Brasil do que em outras economias, observa a entidade.
Como exemplo, o Ibre aponta que, nos EUA, a produtividade do trabalho aumentou 2,8% sobre o mesmo trimestre do ano anterior, ao passo que, no Reino Unido, houve redução de 3%. Em ambos os países, os dados de produtividade são calculados pelos institutos de estatística oficiais.
Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Arícia Martins e Sergio Lamucci - São Paulo, 21/09/2020

